quarta-feira, junho 03, 2020

A Memória das Prateleiras (39/n) - Os novíssimos "Tempos Modernos"




A Memória das Prateleiras (39/n)
Os novíssimos "Tempos Modernos"

Por obra e graça do DVD tive a oportunidade de rever o filme "Short Cuts - Vidas Cruzadas", dirigido por Robert Altman em 1993.

Quando o vi pela primeira vez, há uns anos, fiquei profundamente impressionado. Ao revê-lo agora, apenas confirmei que se trata de um filme extraordinário sobre os paradoxos da nossa vida actual. No mesmo terreno em que Chaplin se moveu, nos anos 30, com a industrialização fabril dos "Tempos Modernos", e em que Tati trabalhou, em 1967, com a industrialização dos escritórios em "Playtime - Vida moderna".

Mostra, durante três horas um certo número de vidas "entrelaçadas" o que, só por si, está longe de ser original e até tem produzido alguns filmes detestáveis. Os motivos de interesse são outros.

Um polícia, um médico, uma "palhaço ao domicílio" que anima festas de aniversário, uma pintora, uma empregada de balcão numa cafetaria, um limpador de piscinas, um comentador de TV, uma prestadora de serviços pornográficos via telefone, uma violoncelista, um condutor de limousine para encontros amorosos, um piloto de helicóptero, uma cantora de jazz, um decorador de bolos comemorativos, um maquilhador de efeitos especiais e outros, cruzam-se e voltam a cruzar-se em Los Angeles.

Uma lista das profissões, onde não figura nenhuma ligada à produção de mercadorias convencionais, que mostra uma sociedade "desenvolvida" com grande pendor para os "serviços interpessoais" e onde a "classe operária" ou desapareceu ou é invisível. O mesmo padrão que persiste ainda hoje. Mesmo que em grande parte tais serviços se baseiem hoje no funcionamento em rede que invadiu todas as áreas da vida.
As sociedades "desenvolvidas" mandaram a produção de mercadorias para o extremo oriente, ou para "zonas industriais", onde por vezes quase só trabalham imigrantes, e que estão fora dos circuitos normais.
Há uma certa "classe média" cujas fontes de rendimento tradicionais têm que ser substituídas por "serviços cruzados", em que o mesmo dinheiro passa por muitas mãos antes de ser devolvido ao "sistema de consumo" nos supermercados e afins.
É verdade que as necessidades humanas são infinitas, e que "nem só de pão vive o homem", mas a invenção desesperada de novas necessidades e de formas delirantes de as satisfazer, pode ter consequências nefastas.

Em "Short Cuts" as relações afectivas mostram-se ressequidas e distorcidas como se estivessem atacadas por uma praga (curiosamente o filme decorre sob o pano de fundo de uma praga de moscas que os helicópteros todas as noites tentam envenenar aspergindo químicos sobre a cidade).

Com o decorrer da acção vamos intuindo que o mal-estar e, depois, a tragédia radicam na mercantilização de gestos e comportamentos que costumavam situar-se no plano das relações afectivas. Tornando "profissionais" as relações que deviam ser íntimas e fazendo cair as barreiras que costumavam separar as amizades, a família e os afectos da luta, quantas vezes impiedosa, pela sobrevivência económica.

Aqueles que ainda pensam que a alienação resulta da preponderância das coisas no relacionamento entre os humanos deviam perceber que é ainda pior quando o que se compra e o que se vende são os próprios sentimentos humanos.

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