segunda-feira, junho 01, 2020

A Memória das Prateleiras (37/n) - Os slides que nunca mostrarei



A Memória das Prateleiras (37/n)
Os slides que nunca mostrarei

Em 1996 fiz uma das viagens mais belas da minha vida, da qual guardo paradoxalmente uma memória triste.

Saímos de Sacramento, de casa da minha irmã, com os dois filhos (com 21 e 25 anos), numa "banheira" alugada. Queria mostrar aos rapazes algumas maravilhas naturais da América.

Passámos pelo Yosemite, atravessámos o parque das Sequóias Gigantes, e descemos até ao sul, à latitude de Los Angeles.

Inflectimos para o interior, pelo deserto do Mojave, sempre dormindo nos motéis, como se estivéssemos num filme americano. Sempre a abrir no fast food, guardando senhas de um para obter desconto no próximo. Para os rapazes era o delírio.

Como não podia deixar de ser parámos em Las Vegas e deambulámos de casino em casino, ofuscados pelo neon.

O passo seguinte foi o Grand Canyon, onde não tivemos coragem de descer mesmo até ao fundo, e depois o grande deserto pintado dos filmes do farwest.
Acontece que chegámos já de noite e com uma trovoada de relâmpagos. O carro avançava na escuridão e, de vez em quando, um relâmpago mostrava os pináculos de rocha à nossa volta. Inesquecível.

Acordámos no dia seguinte, na pitoresca Mexican Hat, onde nos deliciámos com um pequeno almoço servido por "índias" e alegrado pelos colibris que bebiam nos ibiscos vermelhos.

Então metemo-nos num jeep, com um velho navajo, e passámos o dia por rochedos e grutas, que tresandavam a desaparecidos rituais indígenas.
Não quero maçar-vos com mais detalhes, que seriam muitos e saborosos, mas desapropriados.

De barriga cheia, tomámos a direcção do regresso. Não sem antes dar um salto ao ponto mais baixo do planeta em Death Valley.

Eu tivera a precaução de reservar alojamento a uns 70 km de Los Angeles, para evitar entrar à noite naquele dédalo de autoestradas onde já antes havia penado.

O local aprazado da pernoita era S. Bernardino, e eu  reservara dois quartos no motel. Quando lá chegámos percebemos que não era bem aquilo que tínhamos imaginado.

Não por sermos os únicos brancos do bairro, isso não nos incomodava.
A questão é que o nosso motel tinha uma frequência bizarra de travestis espadaúdos e "loiras" demasiado bronzeadas, e nas esquinas próximas pareceu-nos haver um correpio de comércio suspeito.
Nunca me ocorreria classificar aquele motel como tendo "ambiente familiar".

Acantonámos a família toda num dos quartos, o que nos permitiu imaginar como se sentiriam os bravos da cavalaria quando sitiados pela tribo Apache.

A noite decorreu sem sobressaltos e no dia seguinte visitámos Los Angeles, e depois tomámos a estrada do Pacífico até Monterey e S. Francisco.

Uma viagem e peras que os putos nunca mais esqueceram nem esquecerão, durante a qual eu tinha feito uns vinte rolos de slides com a minha fiel Pentax.
Agora imaginem o que sentiriam se perdessem todas as imagens de uma viagem como esta, de certa forma irrepetível.

Foi precisamente o que me aconteceu. Regressado a Lisboa, e tendo posto os rolos a revelar, foi-me comunicado pelo gerente da loja que um saco com todos os meus slides (cerca de 800) havia sido roubado.

É verdade que obtive uma indemnização, mas continuo a não me conformar com aquele "buraco" nas minhas extensas memórias fotográficas.

São os slides que nunca mostrarei e, pior do que isso, os slides que eu próprio nunca vi.

Sem comentários: