sexta-feira, maio 01, 2020

A Memória das Prateleiras (8/n) - A idade da pedra




A Memória das Prateleiras (8/n)
A idade da pedra

Uma mesa é como se fosse uma prateleira com pernas.
Sobre a mesa, em frente aos sofás, está a minha intrigante colecção de pedras.
Em 1980 visitei o lago Baikal, na Sibéria. Para quem não saiba, a maior reserva de água doce do planeta. Centenas de quilómetros de comprimento e uma profundidade enorme (1.600 metros).
Centenas de rios alimentam este lago e dele só sai um. O rio Angará, muito caudaloso, passa depois de percorrer 70 quilómteros, pela cidade de Irkutsk. A tal que me ficara na memória depois de ler “Miguel Strogoff, o Correio do Czar”.
Mas voltemos às pedras. Foi à beira do lago Baikal, emocionado por me encontrar num local mítico, que senti necessidade de trazer para casa um pouco daquela natureza. Recolhi dois calhaus rolados e meti no bolso (sim, calhaus rolados pois neste lago chega a haver ondulação muito forte e, no Inverno, forma-se sobre ele uma camada de gelo com mais de um metro de expessura).
Mas voltemos de novo às pedras. Elas são provávelmente as coisas mais antigas com que lidamos. Olho para os rochedos e penso: já cá estava antes de nós e pode ainda cá estar quando a humanidade tiver desparecido. Não me digam que não é emocionante.
Os calhaus do Baikal voaram comigo, penosamente, até Lisboa e foram morar numa prateleira da sala.
Sem saberem tinham iniciado mais uma das minhas manias. Sempre que viajo faço questão de recolher uma pedra qualquer e trazê-la para casa.
Em 1989, por exemplo, tornei mais fundo o Grand Canyon surripiando uma pedra de aparência calcária e em forma de paralelipípedo. Confesso que nunca estudei petrologia e que, portanto sou um perfeito ignorante na matéria.
Achei que o Grand Canyon tinha dignidade suficiente para ombrear com o Baikal e os respectivos calhaus têm, até hoje, coexistido pacificamente fazendo inveja aos dirigentes políticos das duas superpotências.
A essas duas que acabo de referir muitas outras se juntaram. De Chichen Itza, no México, ou de Angkor Wat no Cambodja. De Katmandu, da Patagónia, ou do deserto jordano de Wadi Rum. Das praias de Cabo Verde ou da Madeira, da Muralha da China, do Lago Titicaca ou da Costa do Marfim.
O mundo é grande e se mais vida houvera lá chegara (se o vírus deixar).
Os amigos que me visitam pela primeira vez costumam embasbacar perante as pedras. Tenho ali assunto para uma boa meia hora de conversa, até ver os seus olhos a toldarem-se de cansaço.
É comum dizerem-me, talvez para me calarem, que a colecção de pedras constitui uma acto poético, ou mesmo profético de uma harmonia universal entre os homens. Por acaso até concordo.
Sinto-me vaidoso por ter feito aquelas pedras viajarem milhares de quilómetros para se reunirem exactamente na minha sala. Numa espécie de ONU silenciosa e, portanto, liberta da retórica.
Mas vivo no terror de que alguma empregada da limpeza, mais diligente e menos dada à poesia, ao ver aquela lixarada, resolva fazer desaparecer definitivamente os calhaus.

Sem comentários: