sábado, maio 30, 2020

A Memória das Prateleiras (36/n) - Kubrick e a Web saloiice



A Memória das Prateleiras (36/n)
Kubrick e a Web saloiice
O confinamento permitiu-me ver novamente "2001 Odisseia no Espaço", o extraordinário filme do Kubrick.
Quando ele foi estreado em Portugal eu estava na guerra, na Guiné, por isso só pude vê-lo mais tarde, quando em 1970 entrei para a IBM.
As pessoas de hoje devem ter dificuldade em imaginar o impacto do filme naquela época, ao mostrar um computador que conversava com os astronautas e que acabava por "tomar o freio nos dentes".
Para se ter uma ideia desse impacto basta dizer que na IBM em Lisboa, na maior empresa do ramo das TIC, os computadores com que eu trabalhava eram alimentados com cartões perfurados, faziam (lentamente) uma tarefa de cada vez e comunicavam com o operador escrevendo na impressora (não havia qualquer terminal com écran).
O filme era assumidamente especulativo e, pelo que li, cientificamente credível.
Quis o acaso que eu associasse o filme com o Web Summit, que os nossos tecnológicamente iletrados governantes cavalgam como "a última Coca-Cola no deserto".
Será que fazem ideia do número de coisas do género, muito em voga nos anos 80 e 90 do século passado, que já aconteceram por esse mundo fora? Nesses eventos não apareciam, a pavonear-se, primeiros ministros nem presidentes da república.
Eu próprio frequentei algumas dessas realizações em Berlim, Nova York , São Paulo e São Francisco (por exemplo), o que era aliás comum para todas as pessoas profissionalmente envolvidas nas questões da computação
A memória é curta embora as dos computadores não parem de embaratecer e expandir-se.
Algumas das buzzwords actuais têm barbas. Há décadas que se anuncia para breve a explosão da "inteligência artificial" e dos robots em casa a limpar o pó. Hoje a IA voltou a estar na moda embora, em muitos casos, virada essencialmente para exploração de gigantescos bancos de dados. O interesse comercial e político dessas abordagens é inquestionável, mas não tem nada a ver com a ilusão ficcional tradicional dos computadores antropomórficos, com vontade e aspirações como têm os humanos.
Como dizia o Azimov, citando de memória: “se ao menos conseguíssemos fazer algo tão inteligente como uma formiga”. Claro que ele se referia à capacidade de uma formiga para reagir à imprevisibilidade do mundo real.
O mal destas coisas é o sensacionalismo com que são apresentadas não só pelos jornais, o que seria compreensível, mas até por pessoas com cargos importantes nas empresas de tecnologia e na política.
Fogem, uns e outros, do debate sério e fundamentado que nos faça compreender as consequências laborais e sociais da revolução tecnológica iniciada com a invenção da representação binária da informação.
Essa raiz digital da gigantesca árvore tecnológica que hoje presenciamos não é convenientemente explicada nas escolas, para que se perceba de onde surgiu tudo o que hoje nos maravilha.
Uma das coisas que mais me divertiu no filme do Kubrik foi ver como os objectos de uso comum em 2001 eram imaginados em 1968.
Lá estava a video-chamada, mas não ao nível do telemóvel como hoje temos. A máquina fotográfica usada numa das cenas não tinha nada a ver com as que usamos desde o princípio do século XXI.
Isso não é de espantar num filme de ficção. A verdade é que ninguém, mesmo ninguém, previu alguns dos desenvolvimentos mais marcantes da nossa época; as redes sociais, o mapeamento do mundo conjugado com GPS e até o advento da maior fonte de automação actual os "utilizadores/funcionários".
Quase todos nós acabamos por preencher formulários, escrever textos e publicar imagens on-line. São elas que abastecem os bancos de dados das grandes corporações privadas e dos organismos públicos. Dispensando-os de contratar os empregados que deveriam executar esses serviços.

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