sexta-feira, maio 29, 2020

A Memória das Prateleiras (35/n) - O Carimbo



A Memória das Prateleiras (35/n)
O Carimbo

No tempo da outra senhora os carimbos eram muito úteis na actividade clandestina.
Quando se precisava de enviar correspondência usava-se um carimbo de casa comercial, fictícia, para dar ao envelope um ar insuspeito.
Foi por causa disso que eu descobri, para meu espanto, que era fácil encomendar carimbos da “Fábrica Mundial de Carretos, Lda” ou da “Electrificadora Ideal da Pampulha, SARL”, sem nos pedirem qualquer documento ou identificação.
Várias vezes recorri, para o efeito, a uma loja de gaveto, na Rua do Ouro. A princípio temeroso, prescrutando o rosto dos funcionários à procura de um sinal de falsidade. Olhando à volta para perceber se alguém se interessava pela minha encomenda. Mais tarde, confiante, e desinibido.
O carimbo é talvez o melhor símbolo da burocracia. Mas o fundamento da burocracia são sempre regras absurdas, ou demasiado complexas, que só alguém com um carimbo (lá está) pode desbloquear. Com ou sem suborno material.
Voltei a recorrer ao carimbo uns anos mais tarde.
O meu pai, que viajara para os Estados Unidos numa estadia longa, em visita à minha irmã, pediu-me que lhe recebesse e depositasse a pensão de reforma.
Como não havia transferência automática para o banco, todos os meses eu tinha uma via sacra. Recebia o aviso na caixa do correio do meu pai e ia levantar o dinheiro nos Correios para depois efectuar o depósito na conta bancária dele.
Ora nos Correios, não sei por que carga de água, exigiam um carimbo do comércio local, para atestar a conformidade dos documentos. Todos os meses eu tinha portanto que importunar algum lojista que, enfadado, carimbava de cruz a papelada.
Farto da situação lembrei-me da loja de carimbos da Rua do Ouro. Mandei fazer um carimbo onde figurava “Representações Portela, Lda”, tendo por baixo a minha morada.
Se virmos bem eu até estava a actuar em representação do meu pai, e isso ocorria na Portela. Portanto o carimbo não enganava ninguém.
Nos Correios nem pestanejaram. Ou seja, tratava-se de um pro-forma que ninguém verificava e que, como grande parte das burocracias, só servia para incomodar. Ao cidadão assiste o direito de resistir, por todas as formas, a tais desconchavos.
Mais tarde, estava minha mãe nos oitenta e muitos, tive uma nova experiência com a burocracia.
Ela, felizmente, tinha mantido uma invejável mobilidade e ganhara o hábito de frequentar o jardim fronteiro aos Jerónimos. Nunca cheguei a saber se isso também tinha a ver com uma “cegueira” que nunca a abandonou: o jogo. Eu adivinhava-a frequentadora de bingos e, claro, grande consumidora de lotarias. A minha mãe teria delirado com a raspadinha actual.
Ora para ir até Belém a minha mãe tomava o autocarro. Descobri que ela por vezes se “esquecia” de comprar bilhete no dia em que, alvoroçada, me mostrou uma notificação da Carris. Um “revisor” mais justiceiro apanhara a vetusta senhora sem bilhete e aplicara-lhe uma multa. Que era preciso ir liquidar.
Dirigi-me a Alcântara onde me mandaram para uma grande nave com guichets uns ao lado dos outros. No guichet número 7 apresentei a notificação, no guichet número 2 produziram a guia de liquidação e, finalmente, no guichet número 5 procedi ao pagamento.
Mas foi o mesmo empregado que me atendeu nos diferentes guichets e eu podia vê-lo, lá dentro, fazendo o mesmo percurso que eu fazia do lado de fora, saltando de uns guichets para os outros.
Uma cena que Federico Fellini não desdenharia.
O carimbo ainda hoje o mantenho, para o que der e vier.

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