quinta-feira, maio 28, 2020

A Memória das Prateleiras (34/n) - O Mandado de Captura



A Memória das Prateleiras (34/n)
O Mandado de Captura

A mulher a dias já me tinha dito que a GNR batia à porta, de vez em quando, depois de eu ter saído para o trabalho.
Eu, na altura, por razões profissionais, era multado muitas vezes por dificuldades no estacionamento quando visitava os clientes. Calculei que devia ser essa a razão e não dei grande importância.
Meses antes tinha sido visitado no emprego por um polícia fardado anunciado telefónicamente pelo recepcionista:”Senhor engenheiro, está aqui um guarda à sua procura”. “Desço já”. Ao sair do elevador fui abordado pelo agente que, com ar compungido, deixou desdobrar uma colecção de multas como se fosse uma espécie de cauteleiro (não da sorte mas do azar). Lá me livrei dele com uma multiplicidade de promessas.
Já tinha desenvolvido um método para lidar com os guardas autoantes, quando era apanhado em flagrante delito. Consistia em reconhecer imediatamente a minha culpa e iniciar um crescendo sobre a gravidade do acto que acabara de cometer. Em minha opinião eu não merecia qualquer perdão.
Era certo e sabido que, ao fim de algum tempo, o próprio guarda, chocado com tal exagero, começava a relativizar o sucedido. Nesse ponto convinha iniciar uma aproximação ao tema “quem nunca pecou que atire a primeira pedra” e quase sempre a conversa terminava com o guarda a confidenciar as agruras da sua profissão.
Certa vez até houve um que me explicou a dificuldade de ir a tribunal com casos de mau estacionamento, dois ou três anos depois das ocorrências, quando a memória do caso em apreço já se desvanecera. Aproximando a sua cara disse-me: “Quando vejo que o juiz está a fraquejar, a tender para o perdão do faltoso, só tenho um remédio. Digo que o multei por ter visto um ceguinho tropeçar no carro que estacionara em cima do passeio. A condenação era garantida.”.
Vivíamos naqueles gloriosos tempos em que a tramitação das multas se prolongava anos a fio, o que permitia sonhar com a prescrição ou com uma visita papal e a correspondente amnistia. Muita gente mandava os avisos de multa para o lixo.
Ora um belo dia, às 7 da manhã, ainda eu estava deitado, tocam à porta. Vou abrir em pijama e dou de caras com dois GNRs que me entregaram o "mandado" e me disseram que me íam levar para o posto.
Eu, cocei a cabeça, e disse-lhes com o meu ar de Chveik que não me dava jeito nenhum. Que tinha muito que fazer nessa manhã. Prometi ir entregar-me a seguir ao almoço. Os guardas olharam um para o outro, hesitaram, e depois aceitaram a minha oferta.
Às duas e tal apresentei-me, obedientemente, no posto de Sacavém onde um cabo amanuense lutou com a máquina de escrever, ferrugenta, e lá produziu um auto de captura.
O sargento, todo lampeiro, gritou então para um praça "Vá lá buscar o jeep para levar o preso". Mas o outro retorquiu "Oh meu sargento, o jeep está avariado há mais de uma semana".
O sargento, com ar insinuante, perguntou-me se eu me importava de transportar o preso, ou seja eu próprio, e mais o soldado GNR que me ía escoltar até ao tribunal de polícia (que ficava ali para os lados de Campolide, apropriadamente ao lado da Penitenciária).
Com a simpatia que me caracteriza disponibilizei-me e lá fui, em amena cavaqueira com o soldado, que passou toda a viagem a lamentar-se da falta de meios para cumprir a sua árdua missão.
Quando chegámos, escoltou-me até um balcão aonde liquidei as minhas dívidas ao Estado. Depois, embora já em total liberdade, ainda tive pena do soldado e fui devolvê-lo ao posto da GNR de Sacavém.

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