quarta-feira, maio 27, 2020

A Memória das Prateleiras (33/n) - É vedado vedar



A Memória das Prateleiras (33/n)
É vedado vedar

Era uma vez um belo país à beira mar plantado.
De repente instalou-se uma vontade indómita de corrigir as assimetrias que a natureza, na sua inconsciência, vai produzindo com impacto na sociedade.
Por exemplo, a injustiça dos muros. Alguém mais sensível lembrou-se de dizer que os muros, pelo menos os que têm entre um metro e dois metros de altura, dividem a população em dois grupos: os que vêem e os que não vêem por cima do muro.
Trata-se de uma intolerável discriminação, com base nas características físicas, de todos aqueles que são mais baixos do que o muro. Qualquer pessoa sabe, ou devia saber, que ter horizontes largos é um direito inalienável de todos os cidadãos, mesmo dos baixinhos.
Instalada a polémica, entre os que eram a favor e os que eram contra, estes últimos tentaram apaziguar a querela aceitando abrir umas ranhuras nos muros para que todos pudessem ver para lá deles. Nada feito, isso era prolongar a discriminação pondo os baixinhos a espreitar a paisagem através de orifícios o que não era nada dignificante.
Houve também quem dissesse que a paisagem era quase sempre desinteressante e que, dado o adiantado estado de degradação dos muros, em breve todos acabariam por ruir resolvendo o problema naturalmente. Foi-lhes respondido que cada um devia poder olhar para onde quisesse, mesmo que desinteressante, e já!
Os políticos, sempre atentos aos votos flutuantes, resolveram legislar que os muros teriam que ser reconstruídos por forma a medirem menos do que um metro ou mais do que dois metros de altura. Foi um alvoroço pois, alertou-se, isso não resolveria o problema dos anões nem dos basquetebolistas estrangeiros que amiúde nos visitam.
Os limites foram então alterados para os cinquenta centímetros e para os dois metros e meio. Apesar de uma petição reaccionária a legislação foi finalmente aprovada. Mas tudo recomeçou pois alguém se lembrou de dizer que os muros de dois metros e meio criavam uma distinção entre os que passavam a cavalo e os que passavam a pé. Foi então aprovada a proibição total de qualquer muro, sebe ou vedação em todo o país.
Como é normal a nova legislação gerou alguns inconvenientes que desencadearam alertas da sociedade civil.
A Direcção do Serviços Prisionais pediu intruções claras e até mesmo o proverbial reforço de verbas. O mesmo aconteceu com a Direcção Geral dos Hospícios e Manicómios (havia quem dissesse que, neste caso, a ausência de muros não se iria notar por aí além).
As largadas de touros, e a pecuária em geral, solicitaram subsídios e uma nova linha de crédito, quiçá uma ajuda de emergência da União Europeia.
A indústria dos Festivais de Verão ao ar livre, que tanto contribui para o progresso cultural do país e da indústria cervejeira, bateu à porta do Ministério da Cultura.
Até as fabriquetas de letreiros “Cuidado com o cão” ameaçaram cortar postos de trabalho e fizeram uma manif.
Foram todos remetidos para a próxima legislatura.

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