terça-feira, maio 26, 2020

A Memória das Prateleiras (32/n) - Furadouro







A Memória das Prateleiras (32/n)
Furadouro

Em Junho de 1967 o boletim do CCUL, Cineclube Universitário de Lisboa, publicava uma reportagem feita por mim e por uma colega. Uma reportagem que tratava das campanhas de pesca no Furadouro.
Curiosamente, no mesmo número do boletim, constava também uma entrevista com Paulo Rocha, o realizador do filme que inspirara a nossa reportagem; “Mudar de Vida”. O mesmo Paulo Rocha que realizara, em 1963, o marcante “Verdes Anos”, com o inesquecível tema de Carlos Paredes.
Integrado no Novo Cinema Português “Mudar de Vida” foi, se não me falha a memória, o primeiro filme a abordar temas não urbanos.

No princípio de 1967, com 21 anos, eu cursava Economia no antigo ISCEF e dava aulas na Escola Comercial Patrício Prazeres em Lisboa.
Era também membro da direcção do Cineclube Universitário de Lisboa e militava clandestinamente no PCP.
Impressionado pelo filme de Paulo Rocha, imbuído do entusiasmo próprio da idade e da sensibilidade já desperta para as injustiças sociais, decidi conhecer directamente a realidade nele retratada.

Chegámos ao Furadouro debaixo de mau tempo, provávelmente nas férias da Páscoa, e alguém teve que ir abrir o Hotel para nos alojar. Depois escrevi:
“Quem chegar ao Furadouro como eu cheguei não pode deixar de sentir a mesma sensação de frio e de abandono que me assaltou. A longa recta que me trazia de Ovar transformou-se subitamente na rua principal da povoação, perpendicularmente à costa... fomos notando a ausência quase absoluta de gente; só nos três ou quatro estabelecimentos escoando uma luz mortiça se divisava momentâneamente o caixeiro amodorrado atrás do balcão ou encostado à ombreira da porta olhando para nós como para uma andorinha que chegasse antes da Primavera”.

Andei por lá dois dias, a fotografar os palheiros e os barcos. Entrevistei crianças, pescadores e lojistas para um pequeno gravador. E depois escrevi:
“...a terra é pequena e como que fomando-lhe uma casca do lado Sul, por ruas coalhadas de charcos, encontrámos os palheiros amontoados dos homens do mar. Este bairro de madeira desemboca directamente na areia da praia por onde o mar vem quando calha, como fera de rapina, devorar algum palheiro e deixar mais uma das grandes famílias de pescadores sem casa”.

Lá aprendi o significado da “arte xávega”; saltar as ondas e largar a rede num semicirculo, para depois puxar pelos dois extremos arrastando o peixe até à praia.
Percebi a intermitência e o perigo daquela actividade e pude tocar nos remos enormes que só por vários homens podiam ser manejados.
Ouvi, e registei, a “coincidência” de os armadores dos barcos terem também interesses nas lojas em que se abasteciam os pescadores.

Quando o mar estava demasiado bravo para que os barcos saltassem por cima das ondas, toda aquela gente dos palheiros trabalhava “na areia”, carregando-a em grandes caixotes de madeira pelo areal fora.
Enfim, uma vida duríssima como eu nunca observara.

Não tenho ideia nenhuma da câmara fotográfica que então usei e não sei o que foi feito dos negativos que com ela produzi; julgo que os entreguei nas tipografias em Lisboa e que nunca mais mos devolveram.
Tudo o que me ficou foi um conjunto de fotografias em papel, com 10 por 15 centímetros, que guardo religiosamente.

Fotografei muito os garotos e um deles, de pistola de pau em punho, disse-me, meio a sério meio a brincar, que quando fosse grande queria ser assaltante. Um calafrio. Foi junto ao edifício em ruínas a que chamam "Chalé do Matos", cuja construção parece ter ocorrido em 1914.
Outro garoto, o Armando, autonomeou-se nosso guia e acompanhou-nos por toda a parte.

O material recolhido no Furadouro, sem dúvida o meu primeiro trabalho fotográfico relevante, foi publicado no boletim do Cineclube e também no Diário de Lisboa Juvenil, no dia 20 de Junho de 1967, tendo ganho um prémio de reportagem.

Voltei recentemente ao Furadouro, à procura daquele passado, com as fotografias na mão. Os pescadores já não vivem nos seus palheiros à beira do areal. Fizeram-lhes um bairro de casas económicas.
O Armando e os outros garotos não os encontrei. Hoje serão sexagenários.
De porta em porta fui sabendo das mortes, das emigrações e até das cadeias para onde os atirou a precariedade das suas vidas.


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