domingo, maio 24, 2020

A Memória das Prateleiras (30/n) - A Nossa Senhora de Éfeso




A Memória das prateleiras (30/n)

A Nossa Senhora de Éfeso


Estávamos maravilhados com as riquezas naturais e culturais da Turquia mas o guia insistiu em nos ir mostrar a casa da Nossa Senhora. Já lá vamos depois de perceber o contexto.

Começámos em Ankara, no centro do imenso país, visitando o museu das culturas da Anatólia, a ver coisas da cultura hitita e, o maior espanto, baixos relevos assírios com os seus arqueiros barbudos montados em "quadrigas".

Dali saltámos para o deserto calcário da Capadócia, uma exposição de esculturas naturais, cavernosas, que se estendem até cada novo horizonte.

Depois metemo-nos à estrada em direcção ao mar Egeu, por uma meseta seca e quente que faz lembrar Castela, mas em maior. Centenas de quilómetros numa camioneta sem ar condicionado, num desespero de janelas abertas e cortinas de pano esvoçando à frente dos olhos.

Antes de chegar à placidez marítima de Esmirna ainda passámos noutra maravilha. Pamukkale e os seus terraços de carbonato de cálcio, piscinas naturais, brancas, sobrepostas em escadaria encosta abaixo. Com vestígios romanos ao lado (os romanos podiam lá deixar passar uma oportunidade termal com cenário hollywoodesco).

Finalmente, esbaforidos, chegámos a Esmirna, num golfo recôndito do Egeu, mas foi apenas um ponto de passagem em direcção a Éfeso.

Éfeso é um dos mais importantes monumentos clássicos da Turquia.
A fachada da biblioteca de Celso, com a suas colunas em dois níveis, a fonte de Trajano e o gigantesco anfiteatro com 25.000 lugares, tornam as ruínas de Éfeso inesquecíveis.

Mas o guia insistia em nos levar à casa da Nossa Senhora.

Lá seguimos mais para Sul ao encontro do local que Anna Catarina Emmerich, uma freira agostiniana alemã no princípio do século XIX, no meio das suas visões místicas, identificou como tendo sido morada da Virgem Maria até ao momento da Assunção.

Quando lá chegámos fomos encontrar uma capela modesta, ladeada por alguns muros de pedra onde se diz terem sido os aposentos de Maria.
A igreja católica nunca se pronunciou sobre a autenticidade desta lenda, que teve origem nos escritos de um tal Clemens Brentano. Poeta e romancista, encarregou-se de dar à estampa as descrições que supostamente lhe relatou a freira, no intervalos das visões.

Qual não foi o meu espanto quando, ao entrar no recinto, comecei a ouvir uma homilia em português e verifiquei que decorria uma missa dedicada a um grupo de excursionistas vindos do Norte do nosso país (apurei mais tarde que muitas paróquias organizam regularmente viagens à Turquia para este efeito).

Ladeámos a celebração e lá fomos espreitar os edifícios, mais adiante, com que não se gasta mais de um quarto de hora, em especial sob sol inclemente como era o caso.

Satisfeito e impante, o guia conduziu-nos para fora do recinto.
Para lá dos portões a chusma dos vendedores ambulantes desatou a gritar: Portugal, Portugal, Portugal.

Como não se via qualquer televisor que transmitisse as milagrosas fintas do Ronaldo, assaltou-me a hipótese de se tratar de manobra de marketing dirigida aos portugueses que assistiam à missa.

Nem uma coisa nem outra. Fiquei a saber que na Turquia, e noutros países da região balcânica, chamam Portugal às laranjas e, no caso em apreço, os vendedores estavam simplesmente a propagandear um refrescante sumo de laranja.

As laranjas doces, que tanto apreciamos, foram trazidas da China e levadas para aqueles países, pelos portugueses, no século XVI.
Podia agora iniciar uma dissertação sobre a saga marítima dos portugueses mas não sei se devo usar o termo descobertas, descobrimentos, expansão, ou mesmo aparições.
Como não quero ser acusado de colonialismo fico-me por aqui.

Sem comentários: