quinta-feira, maio 21, 2020

A Memória das Prateleiras (27/n) - Palombella Rossa



A Memória das Prateleiras (27/n)
Palombella Rossa

"Iguais são os espectadores do jogo de polo aquático ou os jogadores de cada uma das equipas, entre si, embora a identidade de uma equipa só tenha sentido pela diferença relativamente ao adversário. O jogadores das duas equipas são todos idênticos se contrapostos ao árbitro ou aos espectadores.
Pertencemos simultaneamente aos múltiplos conjuntos com que nos identificamos em cada momento (por exemplo: bancários, inquilinos, solteiros, sindicalizados, diabéticos, filatelistas, orfãos, etc, etc,). Essa lista define socialmente quem somos.
Pertencemos hoje, temporáriamente, ao conjunto dos espectadores de "Palombella Rossa", lado a lado com comunistas em crise e com yupies confiantes. Quando saímos a porta do cinema podemos integrar-nos num desses conjuntos, ou noutro qualquer; isto todos os dias, a todas as horas, até fazermos todos parte do grande conjunto dos mortos."

Escrevi estas notas há muitos anos, quando vi o filme do Nanni Moretti pela primeira vez. Feito em 1989, "Palombella Rossa" caíu em cheio sobre a crise desencadeada pela queda do muro de Berlim.
Era muito fácil nessa época resumi-lo à pergunta "que significa hoje ser comunista?", pronunciada pelo protagonista Michele, um comunista jogador de polo aquático que um acidente rodoviário deixara amnésico. Havia a tentação de tomar "Palombella" como uma dissertação sobre a decadência do PCI.

O filme reapareceu em DVD e somos inevitavelmente tentados a verificar a impressão que nos causa hoje. Num tempo em que a massificação da comunicação, e das modas, acaba por gerar um paradoxo; a brutal diversidade das escolhas a redundar numa assustadora perda de identidade.
A primeira constatação é que a pergunta de Michele, "que significa hoje ser comunista?",  continua sem resposta. "Palombella" não a dá e penso mesmo que não tinha essa intenção. As suas perguntas do filme, não formuladas, são muito mais vastas; o que resta de nós quando desaparecem os laços que nos ligam aos clubes, igrejas e partidos? é possível intervir socialmente sem ceder ao clubismo e ao fanatismo? A sociedade, como sabemos, não é nada tolerante com tais situações.

O facto de o amnésico Michele ser comunista está longe de ser irrelevante, mas um filme muito parecido podia também ser feito com um militante da Democrazia Cristiana na mesma situação de perda da memória. O que verdadeiramente está em causa é o enigma de perdermos a memória dos códigos e rituais que caracterizam a nossa pertença aos grupos com que nos identificamos e que, no limite, nos definem.
Na história de Michele, que podia perfeitamente ser vivida por qualquer um de nós, ele tenta recuperar a sua identidade através da redescoberta dos códigos do polo aquático e do partido comunista, mas acaba por perceber que esses códigos, por serem apenas formalismos, não lhe dão a chave de que precisa.
O próprio filme, construído sobre uma codificação que Nanni Moretti não revela, obriga o espectador que o queira "compreender" a viver uma perplexidade similar à de um amnésico.

As frases "tu és como nós" e "sabes em que somos diferentes?" atravessam todo o filme, ditas por diversas personagens, impondo o tema da semelhança, da diferença e da necessidade que elas têm uma da outra.
Essa dialéctica pode ser ilustrada com a militância comunista, cuja redescoberta causa tanta perplexidade a Michele: os comunistas constatam as injustiças (diferenças) sociais e propõem a igualdade (semelhança) dos homens. Para isso organizam um partido "diferente" dos outros que no entanto precisa de convencer os trabalhadores a desenvolver uma atitude "semelhante" contra a opressão económica.
Michele repete que "os comunistas são como os outros" acrescentando, após uma pequena pausa, "mas também são diferentes".

Para Michele torna-se insuportavel lidar com o uso desleixado das palavras no preciso momento em que se confronta com a tarefa de reconstruir as suas referências de leitura do mundo. Ele grita "as palavras são importantes" e mais tarde, talvez já sem esperança, "um conceito logo que é escrito torna-se uma mentira" e "tem que se inventar uma linguagem nova".

No que toca ao equilíbrio entre "semelhança" e "diferença" a linguagem é um caso paradigmático; não pode ser usada nem de forma demasiado convencional (semelhante) nem de forma demasiado criativa (diferente) sob pena de não se alcançar a comunicação.
Para Michele, que perdeu as suas memórias/referências, todas as palavras serão portanto o ponto de partida para uma linguagem nova e uma forma nova de entender a realidade.

A aventura dessa linguagem nova tem, para Michele como para nós, um preço; o perigo da incomunicabilidade.

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