segunda-feira, maio 18, 2020

A Memória das Prateleiras (25/n) - O ábaco



A Memória das Prateleiras (25/n)
O ábaco
Este ábaco foi comprado em Londres, numa viagem dos anos 70. Nessa época nutri algum fascínio por “máquinas de calcular”, numa espécie de doença profissional causada pelo contacto diário, profissional, com as primeiras gerações dos computadores.
Quem me havia de dizer que iria encontrar o ábaco em múltiplas situações durante a minha primeira viagem à URSS em 1980. Claro que a grande potência também desenvolvia sistemas de computação poderosos. Até países periféricos do “socialismo real” tinham as suas indústrias de dispositivos computacionais (em 1987 estive numa viagem de estudo, de carácter sindical, na Bulgária, onde para meu espanto visitei fábricas de equipamentos electrónicos para a informática).

Em Moscovo, na grande exposição permanente das “Realizações Económicas” qualquer turista embasbacava com uma réplica do Lunokhod, o veículo que se passeara na Lua. É claro que tal façanha nunca teria sido possível sem sofisticados sistemas de cálculo.
Mas ao nível do dia a dia, em mercados e em lojas, de Leninegrado a Vladivostok, o ábaco reinava. Lembro-me de os ter visto no mercado de frescos em Alma Ata no Cazaquistão e numa farmácia em Irkutsk (nesses tempos em Lisboa já andavam de mão em mão as pequenas máquinas de calcular “japonesas”). Mas a utilização do ábaco que mais me impressionou ocorreu em Moscovo.
Andávamos numa visita ao Kremlin e, como é habitual nestas coisas, ao fim de umas horas estava toda a gente derreada. Com tempo agradável, numa paragem para descansar, resolvi recorrer a uma casinha de madeira, em pleno parque, onde vendiam gelados.
Constatei imediatamente que havia uma bicha para comprar o gelado, que se estendia por duas dezenas de metros até uma espécie de *guichet *de atendimento. Não atribuí grande importância ao assunto e lá encarreirei.
À medida que o tempo ia passando comecei a ficar mais nervoso, com receio de fazer esperar os meus companheiros de viagem. Até que consegui chegar ao tal guichet e, só então, perceber o motivo de tão estranha demora.
A matrona que aviava os gelados, equipada a rigor, com touca e tudo, tinha uma complicada rotina.
Primeiro entornava o produto, girando a torneira do depósito, para dentro do cone de bolacha como se faz em qualquer outro país. Mas depois pesava cada um dos cones numa balança, para saber quantos gramas continha, e ficávamos a ver as oscilações dos braços até se equivalerem.
Determinado o peso do cada gelado, pegava num ábaco para determinar o preço a pagar, considerando o peso do gelado e o preço por quilo.
O valor a pagar nunca era o mesmo; um cliente pagava 43 kopecks, o seguinte pagava 47 e o anterior tinha pago 45. Isso bastava para criar um demorado processo de pagamento, com remexer nas algibeiras à procura de moedas e depois o cálculo e a conferência do troco recebido.
Em suma, cada candidato a um gelado passava em frente ao guichet muito mais tempo do que seria necessário se o preço fosse fixo e dispensasse a pesagem, o ábaco e uma complicada troca de dinheiros.
Fiquei a matutar como era possível não haver ninguém que tivesse reparado em tal ineficiência e, por respeito pelos clientes, adoptado medidas para abreviar o atendimento.
Esta historieta aparentemente banal é melhor do que as grandes teses para perceber por que razão aquele sistema económico, e aquela utopia política, acabaram por soçobrar.
Em contrapartida, havia em Moscovo uma coisa espantosamente bem pensada do ponto de vista da utilização por milhões de pessoas.
No Metro de Moscovo, lendário pela decoração das suas estações, não se vendiam bilhetes.
Para entrar na rede bastava meter uma modesta moeda de cinco kopecks, provavelmente a mais comum de todas, numa ranhura (um rublo equivalia a 100 kopecks) .
Perguntarão vocês: e se não tivéssemos as moedas de cinco kopecks? É fácil, havia em todas as estações umas máquinas que convertiam qualquer quantia em moedas de cinco.

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