domingo, maio 17, 2020

A Memória das Prateleiras (24/n) - O Cine Oriente





A Memória das Prateleiras (24/n)
O Cine Oriente

Quando acontece mexer na banda desenhada, ou nas colecções de cromos, vêm-me sempre à ideia os tempos em que elas serviram um comércio de trocas, com que se obtinha dinheiro para ir ao cinema.
O Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa revelou-se-me recentemente. É uma mina online onde podemos redescobrir a rua da nossa da infância. Lá fui encontrar, entre outros tesouros para a memória, fotografias do velho Cine Oriente onde fiz a minha iniciação ao cinema na segunda metade dos anos cinquenta.

Eu morava então na Av. General Roçadas ao fundo da qual, num desvio ladeado de muros altos, se erguia a sala do Cine Oriente.

A miudagem pegava numa dúzia de "livros aos quadradinhos", já lidos, e vendia-os à porta do "piolho", que era a alcunha do cinema, angariando assim o dinheiro para o bilhete. Era o nosso “piolho”, já que havia outros em Lisboa, com destaque para aquele situado no Martim Moniz.

Podia acontecer, e acontecia por vezes, que um matulão qualquer se apropriasse do espólio e nos obrigasse a voltar para casa, de mãos a abanar, sem direito a ver o filme. Com a semana arruinada.
Os bilhetes da plateia custavam 2$50, 2º balcão 3$00 e o 1º balcão, que era apenas uma fila, 3$50. Para ter bilhete garantido, dávamos 1$00 ao porteiro (mínimo exigido) que nos deixava entrar antecipadamente para o átrio que dava acesso à bilheteira.

As sessões do "piolho" não tinham rival na fruição física do cinema, o ar chegava a ser irrespirável, as paredes escorriam humidade e o ruído era ensurdecedor.
Havia sempre dois filmes, de cowboys, de aventuras ou de guerra. Ao intervalo aparecia um indivíduo a vender "esticas", uma espécie de chupa chupas, envoltos num papel, que colávamos nas costas da cadeira do parceiro da frente. Quando alguém metia os pés nos assentos das cadeiras, lá vinha o porteiro avisar "tirem daí as patas"

As cenas de suspense provocavam enorme gritaria com que se pretendia avisar o herói, prestes a ser atacado pelas costas. As cadeiras de pau, basculantes, eram usadas como instrumentos de percussão que levavam os decibéis a níveis insuportáveis.

Tal animação só a reencontrei, em Bissau, no fim dos anos 60 quando os miudos negros, precariamente sentados quase em cima do ecran, vibravam com o heroismo dos índios contra os cowboys.

As boazonas de então e as "cenas de sexo", cuja ousadia à época todos podem imaginar, desencadeavam pelo escuro esquivas formas de masturbação que me dispenso de esmiuçar.

No ecran mostrava-se o Tarzan, os filmes sobre a segunda guerra, e também os fimes de episódios que entretanto caíram em desuso. Se bem me lembro havia um "mascarilha" cujas aventuras e pancadarias se sucediam sob a forma de vários episódios curtos. Ao longo da tarde víamos suceder-se, numerados, uma porrada deles.

Se calhar, mas não garanto, também lá vi filmes de que ainda hoje gosto muito como "A queda de um corpo" (The Harder They Fall) de Mark Robson, "O mundo é um manicómio" (Arsenic and Old Lace) de Capra e "O quinteto era de cordas" (The lady killers) de Mackendrick.
Ou então vi-os noutros que também frequentava como o Max, na Barão de Sabrosa, que depois foi igreja evangélica, o Royal, em Sapadores, que hoje é um supermercado e o Imperial, perto do Chile, que continua emparedado. Ficavam todos a uma distância de minha casa que permitia ir a pé.
Para quem não ligue uma coisa com a outra, convém lembrar que a televisão só se tornou um hábito ao alcance de todas as bolsas um pouco mais tarde. A RTP iniciou transmissões em 1957, tinha eu doze anos mas só se tornou comum possuir um televisor em casa lá para o fim da década.
O passo cinematográfico seguinte foi o Cineclube Universitário, com sessões às quartas-feiras no cinema Imperial. Lá descobri os grandes autorescomo o Visconti, o Rosselini e o Antonioni. E também oBergman,o Kurosawa e o Bresson. Ao vê-los, frequentei o meu primeiro, e talvez o melhor, curso de fotografia.

Foi lá também que catrapisquei uma namorada que durou até hoje.

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