sábado, maio 16, 2020

A Memória das Prateleiras (23/n) - A luta de classes e o Imperador da China




A Memória das Prateleiras (23/n)
A luta de classes e o Imperador da China

Estes guerreiros de barro, por cima da lareira, são uma réplica pobrezinha dos Guerreiros de Terracota, em tamanho natural, que o imperador Qin Shi Huang enterrou, aos milhares, no seu próprio túmulo. Tudo isso se passou no século III A.C., em Xian, a cidade onde se iniciava a Rota da Seda.
Ainda aturdidos pelo gigantismo do monumento éramos assaltados, ao sair os portões, por inúmeros vendedores ambulantes que tentavam impingir-nos estas miniaturas como recordações.

Dei por mim a observar alguns dos turistas, enquanto regateavam o preço. Tive que lhes explicar o ridículo de tentar baixar o preço de um artigo pelo qual nos estavam a pedir o equivalente de 20 cêntimos. Mais do que outra coisa qualquer aquela experiência mostrou-me, mais uma vez, que vivemos num planeta diferente.
É muito educativo verificar que um Império com o poder de construir o grandioso túmulo de Qin, em Xian, sofreu uma decadência tão grande que, no século XIX, a soldadesca francesa e inglesa se deu ao luxo de saquear o Palácio de Verão. Foi no ano de 1860, em Pequim, sem sequer perceberem o valor das preciosidades que estava a destruir.
Charles George Gordon, um capitão, de 27 anos de idade, nos Royal Engineers, escreveu: ” Vocês dificilmente podem imaginar a beleza e magnificência dos locais que queimámos. Fez uma ferida no coração queimá-los; de facto, esses lugares eram tão extensos, e nós estávamos tão pressionados pelo tempo, que não foi possível pilhá-los cuidadosamente.”
Victor Hugo descreveu o saque desta forma:, "Dois ladrões entraram neste museu, devastando, saqueando e queimando, e partiram rindo e de mãos dadas com os seus sacos cheios de tesouros; um dos ladrões é chamado França e o outro Britânia". Hugo esperava que a França um dia pudesse sentir culpa e devolvesse o que havia pilhado à China.
Continuamos a ler todos os dias textos racistas e xenófobos a propósito da pandemia, que revelam além do mais uma enorme ignorância da história e um visão eurocêntrica das relações internacionais.
Ainda há quem pense que a vantagem competitiva da China está na mão de obra barata mas trata-se de uma visão ultrapassada.
Agora a China vive principalmente da dimensão do seu mercado interno, que funciona como um buraco negro na atracção de investimentos de todo o mundo.
E quanto mais crescem esses investimentos mais cresce o mercado interno chinês o que motiva novos investimentos.
Nos tempos da Troika, como resposta às panaceias que mencionavam o “capital internacional” ou mesmo os nossos “grandes capitalistas”, resolvi escrever um texto irónico para que se percebesse que o mundo de hoje é muito mais complexo do que parece. Aqui fica, pois continua a ser necessário ainda que os nomes sejam outros.

A luta de classes e o Imperador da China

A pessoa vai à mercearia e gasta mais do que pode, em produtos que o senhor Joaquim comprou por tuta e meia e nos vendeu por várias tutas. O senhor Joaquim é um ganancioso.

Mas o senhor Joaquim protesta com a anemia do negócio, que os grandes hipermercados sugam pelo tubo do marquetingue. O Belmiro é um monopolista.

Mas o Belmiro mostra a estatística, que já foi melhor antes da crise, e acusa os bancos de salgarem os juros e minguarem o cacheflou. O Ricardo Salgado é um chupista.

Mas o Ricardo Salgado alega que o malparado é galopante e que a sua burra está minada de imparidades, tudo por causa da torneira frouxa do BCE. A Merkel é uma megera.

Mas vem a Merkel e diz que os mercados são volúveis e ingratos. Fogem com os fundos para outros continentes se ela não tiver mão de ferro na despesa. O Fitch dos ratings é um sacana.

Mas então o Fitch declara que não tem culpa de o Obama imprimir dólares à pazada deixando os grandes proprietários à beira de um ataque de desvalorização. O Obama vive acima das suas possiblidades.

Mas o Obama, com a prosápia que todos lhe conhecem, demonstra que os chineses com os seus produtos baratuchos e o seu dumping social, é que corroeram a balança comercial. O Comité Central é um perigo universal.

Mas ouvido o Comité, e o seu arrevezado parlapié, conclui-se não ser fácil alimentar para cima de mil e trezentos milhões, mesmo magrinhos. Dizem até, que agora é a nossa vez de ter paciência de chinês.

Já houve um tempo em que o Imperador da China, com total poder absoluto sobre a vida dos seus milhentos súbditos, não tinha sobre nós qualquer efeito fossem quais fossem as suas birras.
Nem o Lorenz se tinha ainda lembrado do efeito borboleta.

Tempos felizes e simples em que nós podíamos encontrar a esmo, na nossa vizinhança, as causas e os culpados de todas as nossas desditas
(algumas almas ingénuas continuam, aliás, a fazê-lo).

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