sexta-feira, maio 15, 2020

A Memória das Prateleiras (22/n) - O meu próprio muro



A Memória das Prateleiras (22/n)
O meu próprio muro
Este busto de uma filha de Tutankamon, com o seu crânio alongado, réplica comprada na loja do Neues Museum em 1986, traz-me sempre à memória a fantástica “ilha dos museus”, em Berlim.
Foi lá que descobri o inacreditável Museu Pergamon, que possui nada menos que uma parte das portas da Babilónia, baixos relevos Hititas trazidos da Anatólia e ainda o enorme friso escultórico do altar de Zeus trazido de Pergamon, na Turquia (onde fui nove anos mais tarde para ver o local de onde fora roubado).
Na altura em que comprei o busto egípcio já não era um neófito do "socialismo real" nem da RDA. A minha estreia ocorrera em 1979 na Hungria e depois em 1980, quando as nuvens ainda não toldavam o horizonte, em Moscovo, no Cazaquistão e na Sibéria. Meses depois da ascensão de Gorbatchev, em 1985, percorri de automóvel durante um mês, e em campismo com os meus filhos, o Sul da RDA, a Checoslováquia e a Hungria.
Em Fevereiro de 1986, aproveitando uma viagem profissional a Berlim, usei a estação de metro em Friedrichstrasse como porta de passagem para Berlim Leste e percorri essa parte da cidade, a pé, debaixo de uns inclementes dez graus negativos durante o fim de semana.
No sábado almocei com um grupo de polacos e polacas, com quem travara conhecimento na bicha para o elevador do restaurante giratório, no alto da torre da TV na Alexander Platz. Um almoço grastronómicamente sem história mas muito interessante nas conversas.
Domingo tornei a passar para Berlim Leste e, depois das demoradas formalidades da fronteira, era já hora de almoçar. Entrei num restaurante que instalado num primeiro andar e o empregado, como as mesas estavam todas cheias, não hesitou em sentar-me na companhia de três belas jovens. Foi mais uma oportunidade para perceber o que pensavam os alemães do "outro lado". As jovens estavam de visita a Berlim por pertencerem a um grupo folclórico de uma região que não fixei.
Passámos o almoço a discutir a diferença entre não viajar por estar impedido legalmente e não viajar por não ter dinheiro para o fazer. Tornou-se claro para mim que, fosse qual fosse o sucesso económico e social do regime comunista, o simples facto de não se poderem deslocar livremente constituía para os alemães do leste um problema obsessivo.
Em 2019 comemorou-se a queda do Muro de Berlim, e eu resolvi fazer também a minha "reflexão". Dá-me muito gozo ver a forma como certas pessoas comemoram a queda do muro pois sei que, se algum dia houvessem tido engenho para tomar o poder, teriam construído um ainda mais alto e mais espesso.
Em geral creio que a queda do muro não ensinou tanto quanto seria de esperar. Continuamos a ver o vanguardismo florescer e o espírito crítico e auto-crítico constitui uma raridade. O doseamento e a moderação nas convicções por parte de quem, como nós, tantas vezes errou é muito mal compreendido. O voluntarismo e o queimar das etapas, o desprezo pelos processos de fundo em favor das modas e do efémero, marcam aliás a nossa época. Novos vagas de iluminados mostram-se prontas para qualquer engenharia de ocasião.
Quando o muro físico caiu já eu levava vinte e três anos de militância sincera no PCP com base em ideais que, na sua essência, continuo a perfilhar: a utilização das tecnologias actuais para a construção colectiva de um novo modo de produção, em moldes intrinsecamente mais justos, e não o sindicalismo assistencial que hoje parece estar na moda, à mistura com umas provocações de índole sexual para épater le bourgeois.
Só voltei a Berlim dez anos mais tarde, em 1996, quando já me tinha afastado da militância no PCP e depois, de novo, em 2010.
Sempre que lá vou visito o busto e o Pergamon.

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