quarta-feira, maio 13, 2020

A Memória das Prateleiras (20/n) - O Busto de Paestum



A Memória das Prateleiras (20/n)

O Busto de Paestum


Há 44 anos comprámos este busto em terracota ao estilo de Tanagra. num local arqueológico maravilhoso. A Sul de Salerno, perto da costa, situam-se os antigos templos gregos de Paestum, que datam do século VII A.C.

Chegámos de carro com o sol já baixo e nunca esquecerei a cor dourada das suas grossas colunas em pedra estriada. Um local onde, infelizmente nunca mais voltei.

Tínhamos saído de Lisboa, um mês antes, num improvável Volkswagen Brasília amarelo torrado. Descemos a penísula itálica dormindo em pensões rasca e reservando os traveller checks (não, não havia cartões de crédito e cada país tinha a sua moeda) para algum pequeno luxo.

Naquele momento estávamos alojados numa pitoresca vila piscatória, de nome Pozzuolli, a Norte de Nápoles. Nesse dia tínhamos vindo junto à costa, contornando o Vesúvio e deixando à nossa esquerda as ruínas de Pompeia, visitadas dias antes.
Daí passáramos à fantástica "costiera amalfitana", que liga Sorrento a Salerno, em cinquenta quilómetros de estrada sinuosa e com precipícios sobre praias encantadoras.

Foi lá que se iniciou o nosso azar, como verão daqui a pouco. Numa dessas praias passámos algum tempo e, para evitar extravios, metemos todos os nossos pertences no saco de mão.

Regressemos então à mágica Paestum onde, depois de comprada como recordação a estatueta de terracota, se iniciou o regresso a Pozzuolli.
Tomámos a autoestrada por Salerno até Nápoles onde, para pagar a portagem, o saco de mão foi apanhado do chão e colocado no colo.

Entrámos na cidade ao cair do dia, e estranhámos as buzinadelas dos carros que nos seguiam. Um alerta que não sabíamos descodificar.

De repente, em plena marcha, perto da Estação Central, na Piazza Giuseppe Garibaldi, um adolescente numa motoreta estancou à frente do nosso carro.
Após a minha travagem, instintiva, um outro jovem, numa outra motoreta, partiu o vidro do "lado do pendura" e sacou do colo o nosso precioso saco de mão.
Os meus amigos de Milão bem me tinham avisado. Mas em 1976 quase não havia este tipo de criminalidade em Lisboa, e a nossa confiança nos seres humanos estava em alta.

De um momento para o outro vimo-nos totalmente sem dinheiro, e sem traveller checks, mas com muita sorte por termos deixado os passaportes na pensão.
Passado o choque inicial, com pequenos vidros por todo o interior do carro, ainda esboçámos uma perseguição dos gatunos mas fomos desaconselhados pelos "populares", já que estes pequenos delinquentes, que entretanto se tinham enfiado pelas ruelas, costumam andar armados.
Acabámos a noite numa esquadra da polícia napolitana, com um agente entediado, farto de preencher impressos por cada uma das dezenas de roubalheiras diárias.
A única coisa que conseguimos foi sair com um papel na mão, que ainda hoje guardo, e que é um portento de burocracia em italo-napolitano.

E então lá contactámos a embaixada em Roma, que financiou o nosso penoso regresso a Lisboa. O vidro do Brasília era insubstituível, pois Portugal era o único país da Europa onde aquele modelo se comercializava.

A Embaixada entregou-nos dias depois 19.000 escudos para regressar a Lisboa.
Nesses tempos, em 1976, cada turista português que saía de Portugal tinha direito a levar consigo, quando atravessava a fronteira, para todas as suas despesas, apenas 7.500 escudos.
Ironias do destino.

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