terça-feira, maio 12, 2020

A Memória das Prateleiras (19/n) - O "Valente Soldado Chveik"







A Memória das Prateleiras (19/n)

O "Valente Soldado Chveik"


Este livro está num lugar de destaque, em frente à mesa de trabalho, pois tenho pânico de perdê-lo. Já uma vez deixei de saber onde ele estava e foi uma espécie de pesadelo.
É uma paixão antiga, da juventude. Durante anos foi livro de cabeceira, sempre pronto a salvar um dia mais tristonho.

O livro foi primeiro publicado em fascículos, no ano de 1921, e o seu autor escreveu, por essa altura, o seguinte: "As águas do rio Moldava correm tranquilas por Praga, três anos após o fim da Primeira Guerra Mundial. Na distante Viena, o imperador abdicou e com ele foi-se a monarquia por água abaixo. Os tchecoslovacos estão felizes com sua recém-proclamada República. Os anarquistas sentem-se confirmados, e os cafés da Boêmia voltam a ser palco de discussões. As viúvas dos oficiais não querem ficar sozinhas e, com isso, os comerciantes de cachorros têm muito o que fazer."

Em 1985, na única vez em que visitei a bela cidade de Praga, lembrei-me muitas vezes de Chveik e tentei imaginá-lo no seu habitat; as margens do Moldava e a Ponte Carlos perdiam toda a pomposidade quando o recordava. O mesmo não diria de Viena.

O valente soldado Chveik, ri-se das agruras e diz-lhes, na cara, a sua frase preferida: "declaro com obediência" que não me ralo. Passeia uma aparente imbecilidade que não é mais do que matreirice para poder zombar da Áustria e  de sua Majestade Imperial. Ridiculariza o próprio exército em que ele, apesar de checoeslovaco, era suposto combater na I Guerra Mundial.

Chveik, soldado astuto e malicioso, é o símbolo da posição negativa dos soldados checos relativamente à participação na guerra. Constitui uma diatribe deliciosa contra o militarismo, e as estruturas militares, que não poupa o próprio aparelho religioso militar, beberrão e debochado.

Chveik é constantemente perseguido por um agente da secreta que, para melhor o investigar, lhe vai comprando cães uns atrás dos outros. Como verão, se lerem o livro, esses cães acabam por dar cabo do espião, o que provoca sincera consternação do generoso Chveik.

O autor, Jaroslav Hasek, nasceu em Praga em 1883. A sua vida atribulada, há quem diga, faz do livro um texto autobiográfico.
Também ele combatente forçado, capturado pelo inimigo e depois incorporado num exército checo organizado pelos russos.

Após o fim da guerra levou uma vida boémia de escritor.
A sua obra mais importante é sem dúvida "O Valente Soldado Chveik", que tem sido tratada no teatro inúmeras vezes. A mais importante das quais da autoria de Bertolt Brecht.

A edição apresentada é de 1971, quando a guerra colonial ainda existia mas estava já a caminhar para o seu termo. As gerações que a viveram estavam especialmente receptivas a um livro deste tipo, pejado de ironia e de um sarcasmo por vezes delirante.

Para aguçar o apetite dos potenciais leitores junto algumas páginas ilustrativas daquilo que podem encontrar no livro (em imagens anexas).

A página 32 refere a passagem do Chveik pelo asilo de alienados, quando as suas palermices ainda eram erradamente interpretadas como sinais de loucura. Infelizmente não conseguiu lá permanecer tanto tempo quanto gostaria, a sua loucura acabou por não convencer.

Nas páginas 59 e 60 é tratada outra vicissitude, quando são levantadas suspeitas sobre o seu verdadeiro desejo de avançar para a frente de batalha. Passa-se no Hospital de Praga onde tinham métodos infalíveis para curar os falsos doentes.

Finalmente, a página 117 reporta-se aos tempos em que Chveik era ajudante do capelão militar Otto Katz. O nosso herói faz uma descrição, digamos barroca, do altar de campanha que ele, e o seu feldkurat Katz, utilizavam nas animadas missas campais.

Esta é uma leitura que derrota qualquer confinamento.

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