segunda-feira, maio 11, 2020

A Memória das Prateleiras (18/n) - O "General Manager"





A Memória das Prateleiras (18/n)

O "General Manager"
  

Livros e documentos relacionados com a IBM abundam nas minhas prateleiras. Não é à toa que se trabalha, e vive, 23 anos numa empresa. E que empresa...
Hoje tropecei num volume onde estão encadernados jornais e comunicados da Comissão de Trabalhadores e actas das reuniões com a Administração.

O trabalho "sindical" numa empresa que praticava salários e benefícios sociais muito superiores aos do Contrato Colectivo, e que tinha políticas de gestão de pessoal muito avançadas, constituía um grande desafio para a imaginação e para a capacidade de fazer propostas adequadas ao contexto.

Costumo dizer que o PCP e a IBM foram as minhas principais escolas. Cada uma à sua maneira ensinaram-me exigências e inculcaram-me hábitos e disciplinas. A história que vou contar envolve precisamente as duas organizações.

Por volta de 1979 a IBM resolveu nomear um "General Manager" americano, de nome Douglas C. Worth. O novo dirigente máximo da empresa era um homem maduro, autoconfiante, coloquial, de cabelo puxado para trás e umas calças sempre demasiado curtas para tapar as peúgas.
Viu-se mais tarde que não tinha percebido muito bem o tipo de país que lhe coubera em sorte.

Numa iniciativa louvável, para se apresentar aos empregados, resolveu promover uns almoços no restaurante do Hotel Lutécia, perto da avenida de Roma. Para a sua mesa pedia que convidassem uma dezena de empregados que fossem, de algum modo, representativos ou influentes.

Um dia calhou-me também ser convidado. Talvez por causa do meu trabalho sindical e político (militava assumidamente na célula do PCP na IBM).
Mas não creio que lhe tenham explicado isso muito bem.

O almoço decorria normalmente, e o anfitrião procurava ser simpático e cortês, embora as suas etiquetas mostrassem algum exotismo, o que se compreendia em virtude da chegada recente e por vir de onde vinha.

A certa altura o senhor Douglas, bem comido e bem bebido, começou a mostrar sinais de excessiva desenvoltura, chegando ao ponto de chamar o empregado de mesa metendo dois dedos na boca e soprando um estridente assobio.
Sinal de alerta que provocou alguma consternação à volta da mesa.

A escalada de declarações destinadas a impressionar os convivas levou-o a certa altura, expressando-se em inglês como era comum na empresa, a dizer qualquer coisa como: "Eu não costumo interferir no recrutamento de novos empregados, que é um aspecto chave do nosso sucesso. Dou apenas instruções gerais para que não entrem negros, comunistas e gays".

Ficámos todos siderados. A empresa não tinha qualquer tradição de segregação, e muito menos de tal tipo de expressões. Por outro lado o Portugal de 1979 estava demasiado perto da sua Revolução para que tal coisa pudesse passar em branco.

Instantes depois eu perguntei  ao senhor Douglas: "Tem alguma coisa contra os comunistas?"
Olhou-me intensamente e perguntou: "Porquê, você é comunista?"
E eu: "Sou".
Engoliu em seco e retorquiu: "Daqueles da foice e do martelo, do Estaline, etc?"
E eu: "Sim"

Ficou durante dois minutos a menear a cabeça, revirando os olhos pelo tecto, procurando algum sinal nos rostos que à volta da mesa preferiam lá não estar.
Depois explodiu um definitivo: "You are crazy" (Você é maluco). E o almoço acabou.

Soube durante a tarde, através de colegas lá colocados, que a bronca tinha circulado, com espanto, pelos gabinetes dos "Headquarters" em Paris.
O senhor Douglas teve uma carreira curta em Portugal.

Sem comentários: