domingo, maio 10, 2020

A Memória das Prateleiras (17/n) - A imagem da ciência



A Memória das Prateleiras (17/n)
A imagem da ciência

O tablier é uma espécie de prateleira.
É lá que anda a máscara com que me protejo quando saio do carro para entrar numa loja, ou noutro local habitado.
E andamos nisto já vai para três meses, sem saber muito bem qual o fim do caminho.
Hoje discute-se muito como será o mundo depois da pandemia, há até uma polémica entre os que acham que tudo vai mudar e aqueles que pensam que teremos "business as usual".
Uma coisa de que ninguém tem falado é das consequências disto tudo para a imagem da ciência.
Nos últimos meses sucedem-se nas televisões, talvez de forma pouco pensada, infecciologistas, imunologistas, virulogistas, etc, etc. Acho que os cidadãos nunca se tinham apercebido da sua existência e ainda menos do seu incontável número.
Debate após debate, entrevista após entrevista, sucedem-se opiniões que ao fim de alguns minutos são relativizadas, quando não contraditadas, pelo próprio autor. Um pouco na linha "só sei que nada sei".
Não sabemos quantas pessoas foram realmente infectadas, e por isso também não sabemos a verdadeira letalidade do Covid. Há teorias diversas sobre as formas de contágio, sobre as máscaras, sobre os testes, sobre a sobrevivência do vírus em superfícies de vários materiais, sobre a possibilidade de reinfecção, sobre a provável data de disponibilidade de uma eventual vacina, etc, etc, etc.
Ninguém conseguiu ainda verdadeiramente explicar por que razão em certos países, como a Espanha ou a Itália, se deu uma hecatombe e, noutros, como a Grécia ou Noruega, se escapou com uma ou duas centenas de mortos.
O cidadão anónimo foi inundado, durante anos, com os feitos imensos da ciência na área da saúde, das tecnologias, das viagens espaciais. Agora, de repente, uma coisinha minúscula desata a matar gente aos milhares e a resposta da ciência, ao fim de vários meses é: "Vão para casa e lavem as mãos". Uma recomendação que também poderia ter sido dada na Idade Média.
Eu sei que há muitas doenças para as quais a ciência ainda não tem cura mas, por norma, ou não são contagiosas, ou não põem toda a sociedade em pé de guerra. Nem são discutidas nas TVs semanas a fio. Por isso, a insegurança e o medo provocado pelo Covid é muito mais forte.
O supracitado cidadão anónimo pensará assim: temos a maior parte das instituições científicas do mundo dedicadas a estudar o assunto; temos as mais ricas farmacêuticas do mundo interessadas nisto; os meses passam e isto não se resolve. Convenhamos que é desmoralizante.
Todos nós estávamos convencidos de que uma situação deste tipo, descontrolada, só era possível em países da África ou da Ásia. No "ocidente civilizado" uma ameaça séria à saúde da generalidade dos cidadãos nunca poderia acontecer.
Há por aí, silenciosa, uma grande desilusão e sensação surpreendente de vulnerabilidade.
É neste caldo que prosperam os curandeiros, os fazedores de milagres e todos os tipos de misticismos. Não me espantava que assistissemos em breve a um surto de novas igrejas, mezinhas milagrosas, videntes e bruxos.
Personagens desqualificadas como Trump, ou Bolsonaro, e quejandos populistas, que hoje parecem estar na mó de baixo podem, não surgindo em tempo útil uma resposta científica ao Covid, inverter a sua queda e recuperar o fascínio das suas fanfarronadas irracionais.
Não é difícil imaginar o Donald, que actualmente sacode o capote para cima da China, a dizer que os cientistas também são culpados de continuar a morrer gente por não serem capazes de inventar a cura ou a vacina.
A seguir anunciará o corte das verbas federais destinadas à investigação.

Sem comentários: