quinta-feira, maio 07, 2020

A Memória das Prateleiras (14/n) - A poesia



A Memória das Prateleiras (14/n)
A poesia
A poesia também mora na estante envidraçada.
Mas a poesia mora paredes meias com a retórica, o que é uma chatice.
Vivi com ela um amor quase platónico por alturas dos meus vinte anos, eu que passara de miúdo indisciplinado e briguento a adolescente introvertido e dado às profundidades.
Não sei como entrei em contacto com Pessoa mas isso marcou-me para o resto da vida, e não só no plano poético.
Alberto Caeiro encontrou em mim um alojamento fácil, com o seu panteísmo ateu. Com o seu lado telúrico mas totalmente desapaixonado.
É engraçado verificar como ainda hoje fotografo nos mesmo termos em que ele descreve a claridade do mundo.
Para ver as árvores e as flores
É também preciso não ter filosofia nenhuma
Com filosofia não há árvores: há apenas ideias
...
Quando vier a Primavera
Se eu já estiver morto
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada
A realidade não precisa de mim

Mais tarde chegou o outro polo da minha bipolaridade; Bertolt Brecht.
Devorei toda a sua obra teatral mas também poética.
Uso muitas vezes frases tiradas da “Excepção e a Regra”, ou do Círculo de Giz Caucasiano”. Ele veio trazer-me uma poesia de intervenção quando eu mais precisava dela.

Entrei nas cidades no tempo da desordem
Quando lá reinava a fome
Vim pra entre os homens no tempo da revolta
E com eles me revoltei
Assim passou o tempo
Que na terra me foi dado

Muito haveria que dizer sobre estes dois gigantes. Fica para depois.
A minha modesta pessoa publicou uns quantos poemas no Diário de Lisboa, na revista Vértice e no malogrado jornal “O Diário”.
Agora, muito raramente, lá me descaio.
Despeço-me com uma coisa que publiquei no Face, em 2015. Até à próxima.

A matéria é um cérebro imenso
que o tempo vai sulcando
o universo é a memória do tempo
os planetas são memórias do universo
as montanhas são memórias dos planetas
as pedras são memórias das montanhas
os vales são a memória dos rios
as pedras resvalam para os rios
e são arrastadas para o mar
onde rebolam por milhões de anos
até serem areia
a areia é a memória do mar

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