quarta-feira, maio 06, 2020

A Memória das Prateleiras (13/n) - As leituras de Marx





A Memória das Prateleiras (13/n)
As leituras de Marx

Ontem foi dia de aniversário de nascimento do grande pensador Karl Marx, de que toda a gente já ouviu falar, nascido em Trier no ano de 1818.
Tenho nas minhas prateleiras muitos livros que suportaram a argumentação do nosso (meu e da Maria Rosa) livro sobre algumas questões que se colocam ao marxismo em face do desenvolvimento tecnológico. O livro “Do Capitalismo para o Digitalismo” foi publicado em 2003.

O foco foi posto na Teoria do Valor, que considerámos nuclear em Marx, e tal pode ser legitimamente considerado uma temeridade.
Só há duas formas de abordar Marx sem grandes riscos; ou no plano da cartilha partidária, muito simplificada e enviesada, ou no plano académico, juntando novas fontes e ângulos, de modo a torná-lo definitivamente inextrincável.
Como não estávamos nem num nem noutro desses planos, duas coisas podiam então acontecer: sermos hostilizados ou votados ao ostracismo. Aconteceu a segunda, por omissão.

Quando se elabora uma tese deve-se tentar perceber quem é o público alvo, os potenciais interessados. Não o fizemos porque o livro foi escrito essencialmente como forma de organizarmos as nossas próprias ideias, depois de décadas a perseguir uma utopia que se desmoronara.
O nosso objectivo era perceber o que havia falhado no “socialismo real” e tentar conceber como podiam ser retomados certos ideais de justiça, nas condições ditadas pelos novos tempos.

Mas isso não interessava àqueles que entendem que nada falhou nem àqueles que não acreditam, ou não desejam, uma nova forma de promover a transformação social profunda. A escassez do público alvo, falando em termos de marketing, não teria justificado o investimento se outras razões não existissem.

A parte mais radical da argumentação do livro consistia no abandono do factor tempo na criação de valor. Na época de Marx, há 150 anos, a Revolução Industrial produzira uma massificação das relações de assalariamento. A maquinaria repetitiva, com as suas cadências regulares, e o império do relógio, levava a estabelecer uma relação biunívoca entre tempo e produção. Um metro de tecido demora 5 minutos a ser produzido, então numa hora faremos 12 metros de tecidos.
Mas nos tempos actuais, todos sabemos, grande parte dos produtos ou são imateriais ou, sendo materiais, envolvem muito trabalho intelectual (na concepção, no design, na gestão logística de componentes vindos dos quatro cantos do mundo, no marketing, etc). Ora o trabalho intelectual tem a sua duração, claro, mas num dado espaço de tempo não é possível saber a quantidade e qualidade do que é produzido.
O conhecimento e automação estão presentes em todo o ciclo que vai da concepção ao próprio consumo.

Sem a preponderância do factor tempo é a própria relação de trabalho assalariado, e tudo o que ela representa no capitalismo, que deixará progressivamente de fazer sentido.
A síntese apresentada mais acima constitui uma simplificação enorme e deixa de fora toda uma série de questões associadas mas, neste contexto, não podia ser de outra forma.

O livro “Do Capitalismo para o Digitalismo” surgiu como o coroar de um conjunto de ideias que vinham sendo trabalhadas pelo menos desde 1989 (eu visitara a URSS de Gorbatchov em 1988). Nesse ano, em que caíu o muro de Berlim, foi apresentada uma comunicação ao 11º Congresso Mundial dos Computadores, da IFIP, em S. Francisco, que constitui uma espécie de embrião de tudo o que veio depois.
Em 1990, ano do XIII Congresso do PCP, publicámos na revista Vértice um longo texto intitulado “Do Socialismo Prematuro, para o Socialismo do Futuro”. Ou seja, as ideias do livro andaram mais de dez anos a fazer o seu caminho.
Agora, passados 17 anos da publicação do livro, não temos qualquer razão para renegar as suas teses principais.

A emergência da China no contexto do capitalismo global, que não antecipámos, veio atrasar ou modificar alguns desenvolvimetos da Revolução Tecnológica. A entrada da China no processo de globalização, dada a sua dimensão, e dadas as suas formas de produção, resultou num prolongamento do modelo  “assalariamento+trabalho repetitivo+bens de consumo básico” que, no “ocidente” estava já em fase de esgotamento.
Mas os mecanismos de decomposição do assalariamento são os mesmo e os resultados acabarão por aparecer. É apenas uma questão de tempo.
A grande questão que ninguém está a discutir, mesmo os “partidos radicais”, é a de saber como, e com quê, substituiremos o trabalho assalariado. Uma coisa me parece desejável: não sermos todos funcionários assalariados de um Estado omnipresente.

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