terça-feira, maio 05, 2020

A Memória das Prateleiras (12/n) - Pague uma, leve duas



A Memória das Prateleiras (12/n)
Pague uma, leve duas
Algures no princípio do século XXI, ainda os meus pais eram vivos, fiz-lhes uma das visitas quotidianas.
Por qualquer razão, que desconheço, reparei que a um canto estava arrumada a minha velha máquina de escrever. Uma Voss Wuppertal De Luxe, azulada, com que eu escrevera muitos dos meus textos, mais ou menos inflamados, de jovem adulto.
Quando eu comecei a publicar poemas no Juvenil do Diário de Lisboa, em 1965, pela mão do saudoso Mário Castrim, era nela que os escrevia.
Os poemas dactilografados ganham outro peso. Se forem publicados num jornal ou num livro ganham um estatuto ainda mais pesado.
Aos mais jovens, quase todos possuidores de computadores e impressoras, talvez escape uma parte do que pretendo transmitir. Por isso me atrevo a lembrar-lhes que nem sempre houve computadores pessoais e que mesmo os grandes computadores não tiveram sempre terminais para vários utilizadores.
Quando eu cheguei à profissão de programador, em 1970, nós falávamos com o computador dando-lhe cartões perfurados para ele ler e ele respondía-nos escrevendo numa impressora. Um programa executado de cada vez, numa longa fila de espera que se ía escoando durante toda a noite.
As máquinas de escrever têm tradicionalmente associada uma imagem romântica, nas mãos de jornalistas e escritores, matraqueadas de cigarro ao canto da boca. No entanto havia também o lado “industrial” da dactilografia; enormes salas onde dúzias de senhoras (normalmente eram senhoras) transcreviam manuscritos, dia após dia. Era a sua profissão.
Essas mesmas senhoras passaram depois, por obra e graça da tecnologia, a perfurar cartões em vez de encher de caracteres as folhas A4.
Esta profissão é uma daquelas que os computadores pessoais fizeram desaparecer.
Por exemplo, o vendedor que costumava mandar as propostas para serem dactilografadas pela secretária, ou na secção competente, recebeu um PC e passou ele a produzir as propostas.
O mesmo sucedeu, por exemplo às telefonistas com o aparecimento das centrais telefónicas computorizadas.
Esse processo “faça você mesmo” continua a seu caminho e hoje, pela via da internet, os nossos fornecedores põem-nos a nós, clientes, a realizar uma parte do trabalho administrativo que lhes competiria. Por exemplo preenchendo a nota de encomenda, ou o impresso de uma transferência.
Esse é, em minha opinião, o processo mais intenso de substituição de mão de obra assalariada nos dias de hoje. Mais intenso do que os robots de que tanto se fala.
Voltemos então à máquina Voss da minha juventude.
Pedi aos meus pais, que há muitos anos eram fiéis depositários do objecto, que me deixasse levá-lo para casa. Foi um acesso de nostalgia que me deu.
E assim foi. Meti-a no estojo forrado de tecido em xadrez e saí na direcção da minha casa, uns trezentos metros mais abaixo.
Teria andado cem metros e deparei, debaixo de um arbusto que bordejava o passeio, com uma enorme máquina de escrever. Muito maior do que aquela que eu transportava.
Alguém resolvera desfazer-se de uma enorme Olivetti M40, M 40/3, metálica e pesadíssima, e simplesmente atirara-a para ali. Apurei mais tarde que a Olivetti é um ano mais nova do que eu, foi fabricada em 1946,
Não resisti ao encanto de tal coincidência. Peguei também na Olivetti e marchei, sobrecarregado, para casa, onde fiz uma entrada triunfal com uma máquina de escrever em cada mão.

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