segunda-feira, maio 04, 2020

A Memória das Prateleiras (11/n) - Duas cabeças pensam melhor do que uma





A Memória das Prateleiras (11/n)
Duas cabeças pensam melhor do que uma

Duas cabeças em cerâmica pontificam na sala. Costuma dizer-se que duas cabeças pensam melhor que uma, mas eu não estou certo disso.
Ambas vieram de Itália. Uma do Norte e outra do extremo Sul, da Sicília.
Por cima da lareira, comprado precisamente para o local onde se encontra, avulta um Baco aureolado de folhas de parreira, como compete. Um devaneio, por culpa do charme de Siena, em plena Piazza del Campo, no já longíquo ano de 1998.
Coisas do mundo que existia antes da Expo 98 e da Ponte Vasco da Gama.
Por cima do louceiro, que me garantiram funcionar como galinheiro na China, está a cabeça trazida de Siracusa, na segunda visita à Sicília em 2014.
Regressei a Siracusa, mais concretamente à ilha adjacente de Ortígia, 25 anos depois de a descobrir, em 1989. A sua beleza decadente nunca mais deixara de me encantar e, como tantas vezes acontece, lamentava não ter podido, ou sabido, fotografá-la melhor (passei umas horas a procurar, para as fotografar de novo, umas casas que já fotografara em 1989) .
Recordei durante todos esses anos os palácios barrocos abandonados, dentro dos quais cresciam árvores, botando ramos que espreitavam pelas varandas. E também o casario debruçado sobre a marginal sinuosa a toda a volta da ilha.
Em 2014 encontrei tudo muito diferente;os palácios pareciam ter sido todos recuperados para funcionar como hotéis.
Da primeira vez fui lá em Abril e em 2014 fui em Setembro, o que não ajudou.
O turismo de massas parece ter descoberto o encanto do local e não só reparou os edifícios como os encheu de hordas de turistas, onde sobressaem os casais gay.
Os grandes navios de cruzeiro surgem, inopinadamente, na perspectiva das ruelas.
O mesmo desencanto senti em Taormina, no mágico teatro grego sobre o mar.
Mas afinal o que trouxe eu da Sicília?
Já em 1989, em Siracusa, eu ficara apaixonado pelos jarrões em forma de cabeça, esmaltados e quase sempre polícromos. As lojas que se dedicam a esse comércio tinham sido, e voltaram a ser, locais de deslumbramento.
Vim a saber que às “testas di moro”, que é como se chamam, está associada uma lenda que, dizem, remonta ao domínio muçulmano por volta do ano 1100.
Uma bela rapariga siciliana, de olhos cor de mar, terá então atraído as atenções de um “mouro”, por quem se apaixonou. O romance ficou em perigo quando se soube que o amante deveria regressar à sua terra natal, onde o esperavam a mulher e os filhos.
Desesperada, a moça decapitou o “mouro”, enquanto ele dormia, e usou a sua cabeça para plantar uma flor no seu terraço. Todos os dias a regava com as suas próprias lágrimas e a flor cresceu bela e desmesuradamente.
Os vizinhos, espantados com tal sucesso, resolveram imitá-lo fazendo, também eles, vasos em forma de cabeça. Assim terá nascido esta tradição siciliana.
Percorridas várias lojas, para poder fazer uma escolha fundamentada, lá tomei a difícil decisão de escolher a que vos mostro.
Por que escolhi esta “testa”? perguntarão. Não é das mais espectaculares, como as que têm muitas cores. Não é das mais icónicas, pois não representa um rosto negro. Não é das mais elegantes, pois não apresenta pérolas, brincos ou turbantes.
Preferi uma beleza sóbria, monocromática, em tons de azul que lembram os azulejos da nossa Lisboa.

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