domingo, maio 03, 2020

A Memória das Prateleiras (10/n) - As corridas




A Memória das Prateleiras (10/n)
As corridas
Na parede da cave reluzem as medalhas obtidas em provas oficiais.
Maratonas, meias maratonas, mini maratonas e toda uma variedade de quilometragens. Os 25 quilómetros de Cascais, os 20 quilómetros de “não sei onde” e mais uma infindável série de provas que os organizadores, empresas, autarquias e grupos desportivos, resolviam inventar.
Informo desde já que as medalhas obtidas não correspondem a qualquer vitória ou, sequer, pódio.
Os organizadores, e bem, consideram que pessoas como eu conseguirem chegar à meta é já uma enorme vitória. Por isso dão medalhas a toda a gente.
Em 1989, quando iniciei os meus treinos por influência dos colegas de trabalho, eu era um sedentário quarentão, talvez no início das dúvidas acerca do seu próprio físico. Os treinos e as provas eram ocasiões de grande companheirismo, um ambiente que aplainava todas as dissidências.
Desde a recruta nos fuzileiros tinham passado mais de vinte anos. Nesses tempos idos acontecia muitas vezes, logo a seguir ao jantar, os instrutores mandarem-nos fazer uma corridita de 25 quilómetros onde alguns, de estômago mais sensível, acabavam por deixar a mencionada refeição.
Mas aos 22 anos não há mal que nos chegue.
Lá recomecei então os treinos, aos 44, e consegui superar aquela fase em que receamos explodir a cada passo.
A minha primeira prova a sério foi a meia maratona da ponte 25 de Abril. Como ainda estava muito verde apeei-me no Terreiro do Paço, dispensando-me de dar a volta e arrastar-me até Belém. Dos 21 fiz apenas 14 quilómetros, mas o meu ego beneficiou imenso. Sonhei com mais altos voos.
Em 1992 corri a primeira maratona, sim, aquela dos 42.195 metros. Foi em Lisboa.
A internacionalização, sob a forma de grupo excursionista dos colegas de trabalho, começou com a meia maratona de Paris, em 1993. A coroa de glória foi a maratona de Londres, em 1994.
Em Londres há alegria e música do princípio ao fim, e somos incentivados por milhares de cidadãos ululantes que bordejam todo o percurso. Era Abril, com bastante frio, e eu atravessei a meta, sem ter parado uma única vez, de forma triunfal, ao fim de 3 horas e 45 minutos.
Lá me escapei da multidão e apanhei o metro para o hotel. Tomei banho e deitei-me em cima da cama a ver na TV, fascinado, os corredores que continuavam a chegar à meta várias horas depois de mim. Muitos deles mascarados. Os últimos demoraram qualquer coisa como oito horas no percurso, ao longo do qual se dedicaram às mais variadas paródias em vez de correr.
No ano seguinte, em Havana, a experiência foi muito diferente. Calor, humidade, chuva e “apenas” 700 corredores, em vez do 25.000 de Londres. Por outro lado havia uma óbvia pobreza nos equipamentos. Corri lado a lado com um homem que calçava umas botas de box, oferta de um filho que mourejava na Flórida.
Os corredores eram tão poucos que o trânsito não parava e, nos cruzamentos, quando enxergavam algum atleta, os polícias mandavam parar os carros, por momentos, para ele passar.
Quando comecei a entrar na idade fui reduzindo as quilometragens e tornei-me habituê das mini maratonas da Ponte Vasco da Gama, no fim do Verão ou princípio do Outono. Depois, a coluna proibiu-me essas andanças e converti-me às caminhadas.
Tenho saudades da sensação de liberdade inerente à corrida e da alegria de saltar sobre os obstáculos. Não percam a oportunidade enquanto são jovens.
A natureza é injusta. É precisamente quando os músculos perdem tonicidade que têm que suportar mais uma dúzia de quilos.

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