sábado, abril 25, 2020

A Memória das Prateleiras (6/n) - Lições de Mandarim



A Memória das Prateleiras (6/n)
Lições de mandarim
Na prateleira de baixo, muito disfarçados, lá estavam os manuais de mandarim.
Eu visitei a China em 2006 e o choque foi tremendo. Costumo dizer que a China é um planeta de que andámos demasiado tempo alheados, um pouco à maneira do belo filme "Melancolia" do Lars Von Trier.
Tanta gente, e tão laboriosa, sob uma batuta omnipresente dá que pensar.
Quando regressei, à boleia da curiosidade reinante, fiz várias exposições de fotografia com o material recolhido. A principal teve lugar no Centro Português de Fotografia, sediado no Porto.
O meu interesse pelo país tornou-se enorme e, para melhor entender a sua cultura (essa sim, alternativa) resolvi estudar a língua.
Lá andei, disciplinadamente, durante três anos, às voltas com os infindáveis tracinhos e com as especiosas entoações. Cheguei mesmo a fazer um exame de segundo nível, no Instituto Confucio de Lisboa.
Quando voltei à China em 2009 já conseguia trocar algumas frases triviais, sempre à beira do deslize na entoação que invalida imediatamente mesmo a frase mais bem construída.
Cheguei ao ponto em que, para poder progredir, teria que fazer um grande investimento pessoal. Eventualmente ir viver para a China durante algum tempo.
Como tal não era viável suspendi os estudos e entrei naquela rampa descendente em que os conhecimentos adquiridos se vão esfumando por falta de prática,
Mas o interesse pela China permanece, tal como o profundo respeito pelo seu povo e a sua cultura milenar.
Ainda hoje me revolta ouvir qualquer badameco falar do Império do Meio como se fosse uma freguesia da Beira Interior,
Essas pessoas não fazem a mínima ideia da dimensão das questões que criticam, e opinam com prosápia sobre os destinos de um povo antigo e numeroso que não compreendem na sua diversidade.
Uma economia que funciona de acordo com os padrões capitalistas e um Estado comandado por um partido comunista. Esta é uma mistura inédita cujo destina me intriga e interessa, Para já congratulo-me com o facto de centenas de milhões de chineses terem sido tirados da miséria extrema.
Eu sei que a China não é um modelo no que toca às liberdades individuais e à democracia multipartidária, mas tenho dúvidas de que um sistema mais aberto tivesse podido manter, e denvolver, um país tão gigantesco e que partiu de uma base tão precária.
O futuro é uma incógnita mas uma coisa é certa: o futuro da humanidade depende, em grande medida, do futuro da China.

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