sexta-feira, abril 24, 2020

A Memória das Prateleiras (5/n) - O milagre da música






A Memória das Prateleiras (5/n)
O milagre da música

Num canto da estante envidraçada fui descobrir os livros "de música". Entre eles avultam os catálogos de CDs "clássicos" que eu tanto folheei em busca da versão ideal desta ou daquela sinfonia.
Eu começara aos 18 anos, com um gira discos de plástico oferecido pelo meu pai. Comprava long-playings na rua do Forno do Tijolo, numa casa chamada "Lusolândia", ou algo do género.
As sinfonias do Beethoven, claro, mas também o Concerto Triplo que ainda hoje é uma das minhas preferências (pelo Oistrack, Rostropovich, Richter e Karajan).
O surgimento do CD parecia então fazer o milagre de libertar o ouvinte do crepitar, da mecânica dos gestos e do cotão na agulha para se concentrar na própria música.
Em 1985, na Konig Strass em Dusseldorf, meti um leitor de CDs na mala com que passei, a assobiar, na alfândega em Lisboa.
De Londres, da enorme HMV, trazia carradas de Deutsch Gramophones e mais não sei quantas marcas que ia descobrindo. Vasculhava asteriscos no catálogo da Penguin e lia muito sobre os maestros, pianistas e outros interpretes.
Passava horas e horas de puro prazer, ouvindo como eu dizia "com o corpo todo"; confesso que foi a cura para um longo estado depressivo. A música como uma espécie de pente do espírito.
Percorri todos os períodos e géneros, descobri novos interpretes e o que os distinguia. Esses milhares de horas de audição já ninguém me tira. Às vezes digo que os melhores livros da minha vida foram obras musicais.
Tinha por hábito, que intrigava os meus amigos, meter uma pequena ficha em cada capa onde registava a data das audições. Sabia sempre há quanto tempo ouvira cada disco pela última vez.
De paixão em paixão fui amealhando discos para a velhice, armários a abarrotar com um espólio cerca de 2.000 unidades.
Mas a vida não é linear, chega mesmo a ser traiçoeira. A dimensão da discoteca nada pode contra a perda de audição que vem com a idade.
Hoje, julgo eu, mais do que ouvir com os ouvidos eu oiço com a memória das audições antigas, O cérebro completa as frequências que os ouvidos já não captam.
Mas a música não tem paralelo nas minhas afeições artísticas.

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