quinta-feira, abril 23, 2020

A Memória das Prateleiras (4/n) - Autocolantes












A Memória das Prateleiras (4/n)
Autocolantes
O dossier contém 800 autocolantes do tempo do PREC, cuidadosamente colados em folhas de cartolina branca e lustrosa.
Náufragos de um tempo de entusiasmos que a pasmaceira actual faz parecer absurdos.
Não havia manifestação ou comício, e eu frequentei tantos que lhes perdi a conta, em que não formigassem por entre a turba os vendedores de autocolantes.
Era a famosa "recolha de fundos" para as mais variadas coisas; desde a construção do "centro de trabalho" até ao obscuro sindicato em dificuldades.
Depois colavam-se no peito, com a prosápia de quem tem a verdade na barriga.
Já nessa altura, mais raros, apareciam os coleccionadores, com mãosadas deles "para a troca". Por onde andarão?
A estética era, por norma, de uma ingenuidade comovente mas também apareciam coisas elaboradas, com origem nalgum coio de intelectuais ou artistas.
As datas raramente figuravam pelo que é hoje muito difícil saber as circunstâncias da sua produção.
Nesses tempos iniciais ainda havia muitas células de empresa, bem como CTs (comissões de trabalhadores).
Tais organizações, que se foram esboroando com o tempo, tinham um carácter, muito especial, de amigos que se deslocavam em grupo para aquelas romarias políticas típicas da época. Eram pessoas que trabalhavam todos os dias lado a lado, em que as sintonias e sincronismos estavam naturalmente garantidos.
Quando tudo começou a girar à volta dos grandes sindicatos e das "concelhias" perdeu-se esse lado convivial e de confiança mútua.
Deixei de frequentar manifestações há muitos anos, perdida por completo a fé na sua eficácia; costumo dizer aos meus amigos mais jovens que lá vão que, se as manifestações mudassem o mundo, nós teríamos implantado o socialismo em 1975. Tantas e tão vibrantes elas foram

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