quinta-feira, abril 16, 2020

A Memória das Prateleiras (1/n) - A Vida Soviética









A Memória das Prateleiras (1/n)
A Vida Soviética

Deambulando pela cave fui dar com as encadernações da "Vida Soviética". Todos os números desde 1975 até 1985, forrados a vermelho e com letras doiradas.
Há quem não tenha a noção de que a URSS durou apenas 17 anos depois da Revolução Portuguesa.
Até se desintegrar em Dezembro de 1991 exerceu um enorme fascínio sobre os militantes comunistas e outros progressistas portugueses.
Os traumas dos anos sessenta nunca tinham encontrado uma alternativa às "velhas" democracias burguesas e, nesse vazio, impunha-se o poderio da URSS.
Derrubado o fascismo, no momento em que tudo parecia possível, não havia outro modelo que rompesse com o status quo capitalista e com o odiado imperialismo americano cujos feitos no Vietname haviam marcado toda uma geração.
A revista "Vida Soviética", que surgiu em Maio de 1975, uns meses antes do balde de água fria do 25 de Novembro, cumpria a missão de ilustrar as bondades do gigantesco país dos sovietes.
Nela se podiam confirmar, com belas fotografias, as grandes realizações sociais como a igualdade das mulheres, os feitos no desporto e nas artes e até as percursoras preocupações juvenis com o ambiente e a natureza.
Também se mostrava que a URSS dispunha de imensos recursos naturais, fazia avanços decisivos nas tecnologias espaciais e dispunha de umas forças armadas ao nível de qualquer ameaça. Com a derrota patriótica do nazismo sempre presente.
Visitei a URSS em 1980 (Moscovo, Cazaquistão e Sibéria) e em 1988 (Moscovo, Kiev e Leninegrado). Antes e depois do início da Perestroika.
Em 1985, curiosamente, sobem ao poder, quase em simultâneo, Gorbatchov e Cavaco Silva.
Os anos que se seguiram, entre 1985 e 1991, foram de grande perturbação para os partidos comunistas, em todo o lado, e os militantes comunistas foram postos perante um desmoronamento insuportável. A influência dos comunistas nunca mais foi a mesma.
Eu tinha 48 anos quando vivi esta experiência dolorosa de ver acontecer algo, o desaparecimento da URSS, considerado impossível.
Quis o Covid 19, e o confinamento geral que ele impôs (outro impossível que acabou por acontecer), que eu me cruzasse de novo com a "Vida Soviética".
Os últimos 17 anos da Guerra Fria, entre 1974 e 1991, foram o período políticamente mais rico da minha vida.
A eles voltarei uma e outra vez.
Especialmente agora que tantos neo-soviéticos, as mais das vezes sem saber que o são, demonstram de novo a inexistência de uma outra verdadeira alternativa económica e social para um mundo que revela sinais de degenerescência.

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