domingo, março 30, 2014



O Sonho de WADJDA
fui ver o encantador filme de Haifaa Al-Mansour.
Ao que consta a primeira longa-metragem inteiramente levada a cabo na Arábia Saudita.
Confirmei que, a seguir ao racismo, é o fanatismo religioso a aberração que mais repulsa desperta em mim.
A opressão e exploração económica vem só em terceiro lugar.
Eu concordo que é absurdo fazer estas tabelas ordenadas mas eu é que sei como é que se me revolta o estômago.

sábado, março 29, 2014

Regresso ao passado

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O futuro que nos propõe é o regresso a um passado impossível

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sexta-feira, março 28, 2014

GANTURÉ



GANTURÉ
Chegaram a Ganturé quase à noite. Horas e horas nos meandros do Cacheu a ver o mangal passar e a ouvir o ronronar do motor da lancha.
O mangal, a que por lá se chamava tarrafo, com as suas raizes merguladas nas àguas baixas, interrompia-se de quando em quando em aberturas de clareira. Era nessas alturas que um dos rapazes saltava para o banco da Oerlikon e ficava de atalaia, a prometer projécteis de vinte milímetros.
O tenente tinha dito que não se fazia fogo preventivo, apenas se responderia em caso de ataque.
O rapazola, imberbe, sentado no banco da peça limitava-se a rodar sobre o eixo, de mãos aperreadas nos punhos do gatilho, como se andasse num carrocel lá da terra dele.
Depois o tarrafo aparecia de novo e tudo regressava à sonolência pesada da época das chuvas.
A atracagem em Ganturé foi feita pelo cabo, um barbas mais batido, sob o olhar aprovador do tenente. Era preciso aproximar a lancha do pontão ao arrepio das correntes fortíssimas que a maré trazia até ali, a cem quilómetros da costa. Tal era a chateza do país.
Passadas as amarras para terra, com ajuda dos grumetes que estacionavam naquela base de fuzileiros, tisnados e cravejados pela mosquitada, houve uns abraços entre conhecidos e o desembarque das grades de cerveja e das munições.
Entretanto escurecera e ligou-se o petromax, mesmo sabendo que a luz atraía a bicheza voadora.
O tipo que nesse dia estava escalado para o tacho apareceu com o tabuleiro cheio de bacalhau à Gomes Sá.
À volta da mesa, sob o toldo da popa, sentaram-se todos. Sete homens, incluindo o tenente, que picavam no enorme tabuleiro e faziam circular o garrafão de tinto de onde todos emborcaram.
Estavam de costas para o rio que, naquele ponto não teria mais de duzentos metros de largura. A outra margem era apenas negrume.
De súbito rebentam disparos cadenciados de metralhadora. Não parecia o ritmo de rajada ligeira mas sim a fala da metralhadora pesada dos turras.
Toda a gente saltou da mesa e extinguiram a luz num ápice, para deixarem de ser como patos numa esparrela.
Enquanto os disparos ecoavam na noite toda a gente a bordo se concentrava, aos gritos, em desatracar e virar a lancha para a outra margem. Embicada a terra, como estava, era impossível disparar a Oerlikon.
Muito fumo, muito ronco de motor acelerado de rompante, um tabuleiro de bacalhau desvirado, e lá tínham a lancha em posição de disparar. Foi nessa altura que o fogo do inimigo se calou.
Ficou toda a gente perplexa pois, sem os tiros e sem a chama que eles produzem, eram impossível saber em que direcção responder.
O tenente mandou avançar mais para o meio do rio e colocou-se muito esticado, na proa, a ver se lobrigava alguma coisa. Ligaram o holofote da cabine e então apareceu a barcaça Bolama que fundeara por ali, em completa ocultação de luzes. Reinava agitação a bordo.
O tenente, com dois marinheiros, meteu-se no bote de borracha e fez uma abordagem.
Aos gritos explicaram que um cabo do exército, já bebido, tinha caído ao rio em plena noite. Fora então que o Zé Calmeirão, aquele grumete que sofria de ataques de pânico, para dar o alarme, tinha desatado a disparar a G3 para o ar e provocara todo o alarido.
Tinham saltado três tipos em cima do Zé, antes que ele se atirasse também para a água. E só a muito custo dominaram aquela besta de um metro e noventa e lhe tiraram a espingarda das mãos.
Estava tudo explicado, não havia ataque nenhum dos turras. Era preciso era procurar o cabo João que o Cacheu engolira.
Os tipos da base de fuzileiros, que ficava a trezentos metros, também tinham sido alertados pelo tiroteio. Rápidamente puseram os botes na água e apesar da escuridão iniciaram as buscas. Primeiro à volta da Bolama e depois em círculos cada vez mais largos.
Margens, pequenos afluentes, emaranhados do tarrafo e lodaçais, tudo foi esquadrinhado. O cabo João não aparecia.
Horas, para cá e para lá. Olhos cansados de insónia e de falta de luz.
Começaram alguns a dizer que os crocodilos já deviam ter feito desaparecer o João. Outros diziam que a corrente de mais de dez nós devia tê-lo levado vários quilómetros para juzante, sabe-se lá para onde. Também havia quem dissesse que o emaranhado impenetrável das raízes do tarrafo seria, para sempre, a sepultura inescapável do João.
Entratanto fizera-se dia.
A lancha tinha por missão continuar a subir o rio até Farim, escoltando o grupo de barcaças a que pertencia a Bolama.
O tenente agarrou-se ao transmissor e, por entre ruídos roufenhos, informou Bissau do desaparecimento do cabo do exército e pediu instruções ao Estado Maior. Em tempo de guerra não se brinca.
Mandaram avançar como planeado.
Foi dada ordem para desatracar a quem estava atracado e para levantar ferro a quem estava fundeado. Era preciso ordenar a coluna para a largada.
Na barcaça Bolama os homens esfalfavam-se na manivela do guincho, onde enrolavam a corrente da âncora. Iça o ferro, gritavam à uma.
Foi então que viram aparecer o cabo João, desesperadamente agarrado aos elos da corrente.
Passara a noite, morto, a dois metros de profundidade resistindo à força das águas.
Foi muito difícil soltar-lhe os dedos.

quinta-feira, março 27, 2014

THE SECOND MACHINE AGE




THE SECOND MACHINE AGE
Há dias um político da nossa praça, que escreve nos jornais, citava este livro sobre as maravilhas do novo mundo.
Os autores, Erik Brynjolfsson and Andrew McAfee, são nomes sonantes do MIT o que dá sempre um toque de credibilidade.
Mas eu, que trabalhei desde 1970 nas tecnologias da informação já estou "careca" de ouvir discursos ditirâmbicos sobre as tecnologias, que depois se revelam miragens (há 10 anos até escrevi um livro sobre isso http://digital-ismo.blogspot.pt/)
Todos sabemos que tem havido enormes desenvolvimentos tecnológicos mas constatar isso não nos adianta grande coisa se não se compreender a interligação com a criação de valor e com a matriz das relações de produção.
A ideia bacoca de que o crescimento exponencial das tecnologias nos fará deslizar para um mundo de abundância e lazer é bastante irrealista.
As transformações dramáticas no plano tecnológico não podem deixar de provocar correspondentes transformações dramáticas no significado e organização do trabalho bem como nas organizações e instituições que ainda hoje temos, herdadas que foram da Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX.
Isso é que deve ser discutido, compreendido, e, na medida do possível, controlado e dirigido.
http://www.washingtonpost.com/opinions/review-the-second-machine-age-by-erik-brynjolfsson-and-andrew-mcafee/2014/01/17/ace0611a-718c-11e3-8b3f-b1666705ca3b_story.html

terça-feira, março 25, 2014

Um assunto sério objecto de manipulação

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Um assunto sério objecto de manipulação
É deplorável a manipulação que se observa nestes gráficos com o objectivo de exagerar o efeito dos números.
O eixo vertical não começa no zero o que torna a evolução muito mais dramática.
Neste link explica-se como jogando com as ordenadas ou as abcissas se altera a leitura dos gráficos.
http://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:Don't_draw_misleading_graphs

domingo, março 23, 2014

A Primavera chegou ao Alentejo

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A Primavera chegou ao Alentejo

quinta-feira, março 20, 2014

O Meu Manifesto




O Meu Manifesto

1. As dívidas são para pagar

2. A nossa vai demorar um bocado a ser paga e, 
entretanto, teremos que ir pedindo novos empréstimos 
para pagar os antigos (rolar a dívida)

3. Nesse entretanto, para aliviar o povo contribuinte, 
era preciso baixar o que pagamos pela dívida, 
em juros, todos os anos. Ou, seja 
os novos empréstimos terem taxas mais baixas do que os antigos

4. Se lançarmos dúvidas sobre o nosso comportamento futuro, 
como faz o Manifesto dos 70, os juros dos novos empréstimos sobem.

5. Se insinuarmos um incumprimento ou a necessidade 
de um perdão da dívida, como faz o Manifesto dos 70, 
os juros dos novos empréstimos sobem.

6. Mesmo que nos perdoassem parte da dívida, 
o que parece improvável, como a dívida restante 
pagaria juros mais altos a austeridade não poderia abrandar

7. Portanto deixem-se de manobras de diversão 
e concentremo-nos na difícil tarefa de conseguir, 
aumentando a confiança, 
que os juros continuem a baixar até ao ponto 
de aliviarem o Orçamento de Estado.

segunda-feira, março 17, 2014

Uma teleobjectiva contra o fascismo

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Na Primavera de 1973 descobri, por acaso, que estava a ser seguido pela PIDE. Atravessei a Ponte Salazar por engano e, no regresso, estranhei ver de novo o Opel Manta castanho que já no percurso inverso rodava atrás de mim.
Acelerei a fundo o meu potente Alfa Romeo e consegui deixar o Opel para trás, mas de pouco valeu.
Já sabiam onde eu morava e montaram plantão à minha porta.
Eu, tal como a minha mulher, eramos nessa altura empregados muito bem pagos da maior empresa mundial das emergentes teconologias da informação.
Passámos a viver na eminência da prisão, com tudo o que isso significa de instabilidade e desespero. O meu filho mais velho tinha então apenas dois anos.
Cortei todos os contactos clandestinos com o meu partido, o PCP, e comecei a tentar desfazer-me das enormes quantidades de materiais comprometedores que havia em minha casa (em resultado de uma outra história, vivida com o Mário de Carvalho, que talvez um dia seja contada).
Às horas mais estranhas saía de casa, de repente, carregando uma ou duas malas, e arrancava no Alfa Romeo a grande velocidade. Violava sentidos proibidos e invertia a marcha em locais totalmente contraindicados para o efeito.
Rumava à serra de Montachique, aproveitando a longa subida para me certificar de que não era seguido. Procurava um local ermo e largava as malas cheias de panfletos e jornais. Depois voltava para casa e, dias depois, repetia este jogo de gato e rato.
Com a passagem do tempo fomos ficando cada vez mais cansados de espreitar os nossos guardas pela janela, de esperar o desfecho anunciado mas que não se cumpria.
Só assim se explica a reacção que num certo dia não consegui evitar.
Enrosquei a teleobjectiva 200mm na minha Pentax Spotmatic e saí porta fora a fotografar os pides. A teleobjectiva permitia-me obter, à distância de umas dezenas de metros, fotografias bastante nítidas das caras dos agentes que nesse dia montavam guarda junto à minha casa.
Disparei, disparei e eles, com a surpresa, mostravam-se atarantados. Alguns enfiaram-se no carro e desandaram, às pressas. Até houve um que apanhou o eléctrico em andamento e zarpou.
Eu nessa altura tinha em casa um laboratório fotográfico que me permitiu fazer a revelação das fotografias.
No dia seguinte, em envelope carimbado para parecer correspondência comercial, expedi para um amigo que eu sabia poder fazer chegar aquele material ao partido.
Soube mais tarde que essa carta nunca chegou ao seu destino.
Um ano depois deste episódio, a 18 de Abril de 1974, fui preso tal como a  minha mulher.

Gostava de um dia, por milagre, recuperar as imagens daquela inusitada sessão fotográfica…

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domingo, março 16, 2014

Primavera em Lisboa


quarta-feira, março 12, 2014

O Cinema Imperial






O Cinema Imperial
para muitos este nome nada dirá, mas para mim está cheio de memórias.
Fui lá muitas vezes com a minha mãe, à matiné, e foi lá que comecei a namorar a minha mulher.
No fim dos anos 60 eu era um jovem universitário e, como andava em "económicas", fui convidado para tesoureiro do Cineclube Universitário.
Era no Imperial que então se faziam as projecções semanais do melhor cinema permitido pelo regime, nesses tempos de obscurantismo.
Hoje passei na rua Francisco Sanches e, depois de muitos anos, encontro o Imperial entaipado, uma espécie de contentor de memórias e belas imagens a que nenhuma porta dá acesso.

domingo, março 09, 2014

quarta-feira, março 05, 2014

IMPACTO da crise no rendimento (2011-2014)



IMPACTO da crise no rendimento (2011-2014)
O DN publica hoje este quadro que vou assumir como correcto.
- Pensionistas casados em que ambos têm reforma de 600 euros (1200 no total, portanto) passam de um rendimento líquido mensal de 1198 para 1142 euros. Perdem portanto 53 euros entre 2011 e 2014, ou seja menos de 4,7% do rendimento líquido.
- Funcionários públicos casados com rendimento total bruto mensal de 1800 (2X900 euros). Recebiam líquido 1660 em 2011 vão receber 1561 em 2014. Perdem neste período 99.57 euros mensais, ou seja, 6% do seu rendimento líquido.
Se os números estão correctos, são sem dúvida desagradáveis mas não são muito impressionantes. 
Fartos como estamos de ouvir falar do "desaparecimento da classe média.

domingo, março 02, 2014

O impacto da austeridade



O impacto da austeridade
O Centro Comercial do meu bairro é talvez um bom exemplo. 
A maior parte das lojas que acabaram eram "lojas de modas", de roupa para mulheres, que deixaram de ter clientes. 
Reconheço que alguns proprietários e algumas espregadas viviam do rendimento dessas lojas.
Mas a questão que se coloca é a seguinte: deve o país continuar a endividar-se para que milhares de lojas deste tipo, que não acrescentam valor significativo à economia, possam continuar a ser viáveis ?