domingo, julho 31, 2011

A esquerda e Sísifo



O capitalismo é o único sistema que temos e não temos nada que o substitua. O que precisamos é que seja ético.
Mário Soares ao Expresso, 30.01.2011


Mário Soares faz desta vez um diagnóstico correcto embora conclua pela resignação. A esquerda em Portugal está refém desta ideia mesmo quando se recusa a reconhecê-lo, mesmo quando usa uma linguagem radical para o encobrir.

O capitalismo, tomado como um monstro de mil cabeças, remete a acção política para o campo da mitologia, e a história eleitoral portuguesa mostra que a esquerda está condenada, como Sísifo, a carregar o pedregulho desde o sopé uma e outra vez.
Melhor seria usar uma definição mais operativa do capitalismo. Trata-se simplesmente de um modo de produção que se baseia na produção de mercadorias em troca de um salário.
Marx dizia já em 1865, dirigindo-se à classe operária: Em vez do motto conservador "salário diário justo para um trabalho diário justo" deverá inscrever na sua bandeira a palavra de ordem revolucionária "Abolição do sistema de salários!".

Não faz qualquer sentido exigir um capitalismo com ética.
Enquanto a esquerda não recusar a inevitabilidade da empresa capitalista como forma de produzir, e não deixar de exigir emprego assalariado, nunca conseguirá sair do círculo vicioso.
Mas não se consegue detectar nenhum esforço da esquerda para propor novas formas de organização dos trabalhadores no acto de produzir.

Em alternativa ao capitalismo a esquerda actual só concebe a omnipresença do Estado como empregador universal. Mas o Estado, como a história mostra, não é o zelador mítico do "interesse comum"; em cada momento é apenas uma mistura conjuntural de clãs ideológicos, grupos de interesses e mafias burocráticas.


sexta-feira, julho 29, 2011

Para dançar el tango son precisos dos



Ontem à noite tive uma experiência perturbante.
Resolvi ir ver uma exposição de fotografia em Lisboa.
Dirigi-me ao local, por sinal muito pouco frequentado, e procurei a sala que me interessava.
Dei com a porta fechada mas ouviam-se cá fora, distintamente, os acordes de um tango.
Depois de hesitar durante algum tempo, dado que àquela hora a exposição deveria estar aberta ao público, acabei por rodar a maçaneta e espreitar para o interior.
Acorreu uma mulher, que depois concluí ser a professora, e  informou-me do encerramento por estar uma aula em curso.
Realmente encontrava-se na espaçosa sala, onde o tango continuava a ecoar, uma outra pessoa que só poderia ser o aluno de uma aula individual.
Apesar de me parecer bizarra esta situação de encerrar uma exposição para usar a sala como pista de dança, tal estranheza passou de imediato para segundo plano. É que o aluno, com ar esfalfado e em mangas de camisa, era nem mais nem menos do que um dos principais banqueiros portugueses.
Voltei para casa a magicar acerca das motivações que podem levar uma pessoa daquelas, com todos os problemas que neste momento afectam os bancos portugueses, a receber aulas de tango.
É verdade que a Argentina é um case study por ter entrado em incumprimento das suas dívidas e, em consequência, ter passado por terríveis apertos. Mas aprender a dançar o tango parece-me uma via demasiado retorcida para exorcizar o mesmo destino.
Também é verdade que ainda há pouco tempo tínhamos um primeiro ministro que explicou a uma plateia madrilena, em castelhano técnico, que "para dançar el tango son precisos dos".
Só não consigo atinar com quem é que um banqueiro de meia idade, com problemas de liquidez, precisa de saber dançar.

quinta-feira, julho 28, 2011

Até os ricos nos faltam





Realmente preocupante esta notícia dos jornais. Os 25 portugueses mais ricos só têm 17.400 milhões de euros, menos de um quarto daquilo que recentemente pedimos à Troika para meter na cova de um dente do Estado. 
Mesmo que nacionalizássemos, em novo PREC, estas 25 fortunas isso só dava para pagar 25% deste empréstimo. 
Temos que importar mais alguns milionários chineses para ver se nos salvamos.

domingo, julho 24, 2011

Imbecilidade colossal



Eu podia dizer que toda esta questão do "desvio colossal" é, ela sim, uma imbecilidade colossal. Mas como sei que isso ofenderia quem a discutiu ao longo de vários dias, digo apenas que é uma imbecilidade que me irrita de forma colossal.

sábado, julho 23, 2011

Um festival




Entre os institutos ou entidades com as maiores taxas de ausência está a Direcção- Geral da Administração Interna (DGAI), onde o total de absentismo corresponde em média a 54 faltas por cada funcionário, mais de uma centena de vezes acima dos valores registados na Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), em que esta média não atinge sequer meio dia (0,39). Na DGAI, o i analisou 61 funcionários que constam do quadro de remunerações e onde não estão incluídos quatro elementos das forças de segurança, que recebem pelos serviços de origem.
O recorde contudo só não é ultrapassado pelo Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais do Ministério da Cultura (GPEARI) ou pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária por apenas dois dias. Estas duas entidades estão no ranking dos serviços da administração central com os maiores índices de ausências. Logo abaixo vêm a secretaria geral do Ministério da Justiça (47 dias) e a Biblioteca Nacional, com 231 funcionários e uma média de 36 faltas por ano.

Ler o resto do artigo do "i" aqui:

sexta-feira, julho 22, 2011

Morreu Lucian Freud



O pintor inglês Lucian Freud morreu esta quarta-feira à noite, aos 88 anos, em Londres. O artista plástico morreu na sequência de uma doença súbita. Neto do célebre psicólogo Sigmund Freud, Lucian emigrou, com a família, da Alemanha para Inglaterra no início dos anos 30 para fugir ao regime nazi, tendo adquirido naturalidade britânica em 1939.


Vinculado a uma linguagem figurativa, centrada na representação do corpo humano, pintou familiares e amigos no seu atelier durante décadas. 


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quinta-feira, julho 21, 2011

A salvação da Grécia




Hoje é dia de stress test para os líderes europeus. Depois de um ano e meio a meter a cabeça na areia, a estratégia de avestruz da União Europeia conduziu-nos à beira do colapso.
Se logo no início se tivesse, com rapidez e com um mínimo de solidariedade, resolvido o problema da dívida grega - de uma economia que não vale senão 2% do PIB europeu, é bom lembrá-lo -, teríamos sido poupados ao calvário por que a Europa tem passado, assim como ao momento extremamente difícil que agora se vive.
Manuel Maria Carrilho no DN de hoje

Manuel Maria, como muitos outros, dá a entender que os "líderes europeus" são, no seu conjunto, um bando de avestruzes tontas. Tenho alguma dificuldade em imaginar tanta inépcia junta, tanta incapacidade para ver o que é tão evidente para o nosso Manuel Maria. Será que Merkel, para mais uma mulher, chegou a líder num país como a Alemanha apesar da sua tontice? Passemos adiante.
Manuel Maria repete hoje um lugar comum que se estabeleceu na praça com foros de verdade incontestável: a necessidade absoluta de a Europa proceder à "resolução pronta e completa do problema da dívida grega". Confesso que não compreendo o que se pretende, creio tratar-se de uma daquelas ideias a que as pessoas se agarram desesperadamente como os náufragos se agarram às tábuas soltas do casco.
Enquanto a Grécia, tal como Portugal, não forem países económicamente viáveis, que dispensem as mesadas (com juros) dos "tontos" líderes europeus, 
mandar-lhes dinheiro é como despejar baldes de água num areal. Ninguém no seu perfeito juízo ficará a despejar baldes de água eternamente mesmo que seja suficientemente rico para sustentar vários destes "rendimentos mínimos" europeus.


Daqui resulta para mim uma conclusão muito simples: a salvação da Grécia só pode ser obra dos gregos.


Todos somos, ou seremos, Gianni

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Com pouco dinheiro, sem efeitos especiais e quase sem uma história é possível fazer um filme de tocante humanismo. Basta ter sensibilidade, olhos que vejam para além do trivial e, é claro, um bom casting mesmo com não-actores.
É um filme delicioso para os "sex-agenários" como eu e um alerta para aqueles que ambicionem vir a sê-lo.

quarta-feira, julho 20, 2011

Enigmas financeiros

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Portugal emitiu esta manhã 750 milhões de euros em dívida de curto prazo, através de bilhetes do tesouro. Tratou-se do valor mais baixo do montante indicativo que tinha sido apontado, entre 750 milhões e 1000 milhões de euros.
A colocação de dívida foi feita através de duas operações com bilhetes do tesouro, uma de 450 milhões a três meses, com uma taxa de juro de 4,982%, e outra a seis meses, no valor de 300 milhões e com uma taxa de juro de 4,96%.
 Expresso 20.06.2011




Isto faz uma certa confusão. 
Por que é que depois do acordo com a Troika, e do financiamento que ele garante, o Estado português continua a ir buscar dinheiro ao mercado ?
Por que é que as taxas de juro "no mercado" são inferiores às do empréstimo da Troika ?
Por que é que as taxas de juro destas emissões de dívida são muito mais baixas do que as taxas do mercado secundário, que ainda há pouco nos diziam ser superiores a 20% ?


Por outro lado:
Ainda há dias ouvi um comentário que garantia ser um bom negócio para o Estado português "recomprar" dívida emitida, que no mercado secundário é vendida com 20% de desconto, pois isso significaria a eliminação de uma dívida de 100 pagando apenas 80.
Parece evidente que valeria a pena pedir dinheiro a 5%, ou mesmo a 8%, para pagar dívida com desconto de 20%.
Por que é que tal não é feito?


Uma alma caridosa que me explique...

segunda-feira, julho 18, 2011

"A AUDIÇÃO" - Uma belíssima curta para curtir

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"A AUDIÇÃO" - Uma belíssima curta para curtir


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sexta-feira, julho 15, 2011

A procissão ainda vai no adro



Se três milhões de famílias, ou seja, 65 por cento dos agregados familiares, estão excluídos do pagamento do imposto extraordinário.
Se 80 por cento dos pensionistas – o equivalente a 1,4 milhões – estão excluídos do pagamento da sobretaxa de IRS.
Se metade das pessoas abrangidas pelo imposto extraordinário que o Governo irá implementar este ano pagará menos de 150 euros.
Se há cerca de 22 por cento de trabalhadores abrangidos que pagarão menos de 50 euros.
Se tudo isto é verdade não estaremos, mais uma vez, a fazer uma tempestade num copo de água?
A procissão ainda vai no adro.

quinta-feira, julho 14, 2011

"Que mais irá me acontecer'"

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O que parecia inconcebível começa a ganhar contornos de possível 
"gigantesca calamidade financeira" caso falhe acordo para aumentar 
o limite da dívida, afirma o presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke.
A imprensa dos EUA está hoje em efervescência devido à forma como as conversações entre a Casa Branca e o Partido Republicano têm decorrido, tendo culminado com a saída do presidente Barack Obama da reunião de quarta-feira à noite de forma "abrupta", refere o New York Times, na edição digital.
Enquanto a reunião decorria, a agência de notação financeira Moody's colocava sob vigilância o 'rating' máximo dos EUA, com perspectivas de corte no futuro, caso não haja acordo entre as principais forças políticas para aumentar o nível da dívida, que se encontra, neste momento em 14,29 biliões de dólares, algo que a Standard & Poor's também já tinha ameaçado.
O Washington Post 'online' fala num cenário "potencialmente catastrófico", enquanto o Financial Times descreve as negociações entre a Casa Branca e os republicanos como "rancorosas", ao passo que o Los Angeles Times fala em "falência desastrosa" caso haja mesmo um 'default' no dia 2 de agosto.
O diferendo não é apenas entre democratas e republicanos, mas também dentro das próprias fileiras do Partido Republicano, refere o Washington Post, com o líder da minoria no Senado, Mitch McConnell a avisar que uma falência pode "destruir" a marca do partido.
No Wall Street Journal, o antigo chefe de gabinete adjunto do presidente George W. Bush, Karl Rove, rotula a capital norte-americana de "disfuncional", acusando o presidente Obama de ser um "liberal incompetente", enquanto, do outro lado do espetro, o colunista E.J. Dionne, Jr. escreve no Washington Post que o líder dos EUA mostrou que "a redução do défice não é agora, e nunca foi, a prioridade dos republicanos".
DN, 14.07.2011


A nossa geração assistiu ao impensável desmoronamento da URSS e à pulverização da "cortina de ferro", que parecia dar início ao domínio sem freio dos States. Agora temos no horizonte a inacreditável implosão do império americano,  com que tantos sonharam, mas não é possível qualquer regozijo pois ninguém consegue perceber que tipo de barbárie virá a seguir.
No ponto a que as coisas chegaram, com toda esta imprevisibilidade, é caso para dizer, parafraseando as telenovelas, "que mais irá me acontecer?"

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segunda-feira, julho 11, 2011

Out of the Box


video




 Uma invenção chinesa que permite ganhar várias horas numa linha longa com muitas estações.

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sábado, julho 09, 2011

S. Cruz de Coimbra

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Para ver imagens de S. Cruz, Coimbra, clique AQUI

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quinta-feira, julho 07, 2011

RESULTADO FINAL

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RESULTADO FINAL
Exposição colectiva de fotografia

Baltazar Martins, Fernando Penim Redondo, Nuno Barroso, Nuno Vieira Matos, Pedro Seixo Rodrigues, Vera Bello, Vítor Arnaut.


Inaugura hoje, 7 de Julho, pelas 20 horas, na Fábrica do Braço de Prata





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quarta-feira, julho 06, 2011

Ao cuidado dos portugueses de partida para férias




Detesto o falatório avulso sobre as agências de rating. Sempre que nos descem o rating lá vem todo o bicho careto pronunciar-se sobre a maldade delas e a injustiça da decisão.

Trata-se de um discurso absurdo que, dada a sua inutilidade, deve contribuir para novas descidas do rating.

A ganância das agências de rating é um dado que não merece discussão. Elas servem os interesses dos negócios e comportam-se exactamente como seria de esperar. Quando a propósito delas se invocam aspectos morais e se apela à sensibilidade isso para elas significa apenas que não fazemos ideia do que são negócios e que, portanto, há um grande risco de não cumprirmos os nossos compromissos.

A primeira coisa a fazer, sem retóricas, é tentar perceber porque é que nos tornámos vulneráveis às suas classificações e também como é que podemos sair dessa situação.
Sem fazer estardalhaço, devemos depois disciplinadamente aplicar-nos, custe o que custar, a trabalhar para nos libertarmos do jugo.
Esqueçam pruridos, esqueçam nuances e esqueçam os clubismos se realmente querem ser livres.
É difícil? Claro. Mas não é impossível.
Muito mais difícil foi transformar a China miserável dos anos 70 na China do século XXI.
A China está-se nas tintas para as agências de rating, excepto quando elas ameaçam despromover o seu principal devedor- os Estados Unidos.

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domingo, julho 03, 2011

Mais um triste record nacional

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Fiquei estarrecido quando li no relatório do IGCP que a dívida pública portuguesa tinha aumentado, nos primeiros cinco meses do ano, €12,5 mil milhões quando o Governo só está autorizado a aumentar esta dívida em €11,5 mil milhões para todo o ano! Como é que vão resolver isto? Como se justifica este aumento colossal? Porque é que as novidades são sempre más? Porque é que os enganos são sempre num sentido?
Desde dezembro de 1998 que a dívida pública não aumentava num só mês tanto como aumentou neste maio. Não havia problema. A verdade já só se saberia depois do dia das eleições. E a verdade é que se em média, durante dez anos, o acréscimo de dívida de dezembro a maio foi de €1,8 mil milhões, nos últimos dois anos, anos de crise terrível, esse aumento nos primeiros cinco meses do ano foi de €6,7 mil milhões e €7,5 mil milhões, respetivamente. Mas eis que este ano, o ano em que temos três PEC já em ação, o aumento da dívida foi quase tanto como a soma dos dois anos anteriores.
João Duque, Expresso 02.07.2011


Como ainda ninguém desmentiu isto presumo que é verdade.
É o que se chama uma pesada herança deixada por quem, agora, se escandaliza com as novas medidas de austeridade.


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sábado, julho 02, 2011

"Rencontres de Bamako 2009"

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Mãe e filha, da série Generation, de Arwa Abouon


Na Fundação Calouste Gulbenkian está uma exposição, imperdível, composta por fotografias dos "Rencontres de Bamako 2009". Apresenta uma multiplicidade de artistas africanos que, com a expontaneidade do seu olhar, nos revelam um continente impressionante. 

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sexta-feira, julho 01, 2011

Começou a festa dos 50%

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Já começou a festa dos 50% de desconto... no subsídio de Natal. Mas não é um Corte Inglês, trata-se de um corte bem português. Uma ironia involuntária do Público?