quarta-feira, abril 30, 2008

As armadilhas do gratuito

O futuro digital radioso
Público, 29.04.2008, Desidério Murcho


Chris Anderson, editor-chefe da revista Wired, publicou recentemente nesta revista um excerto do seu novo livro, Free, a publicar em 2009 pela Hyperion. Nesse artigo, cujo título pode ser traduzido por Gratuito! Porque 0,00? é o futuro dos negócios, Anderson fala dos diferentes tipos de negócios digitais rentáveis.
Dado ser tão fácil copiar e distribuir músicas, livros, etc., na Internet, e dada a mentalidade que se instalou de que tudo na Internet é gratuito, um negócio digital só é rentável quando temos uma carteira gigantesca de clientes, dos quais cerca de um por cento pagam o serviço. É o que acontece com serviços como o Flickr e outros: é quase tudo gratuito, mas se quisermos mais umas funcionalidades pagamos uma ninharia anual. E isso é suficiente para sustentar o negócio - desde que esse serviço atinja milhões de pessoas.
É por isso que o futuro digital não é radioso. Um músico, escritor ou engenheiro de software só consegue tornar o seu produto rentável caso seja usado por milhões de pessoas - para que cerca de um por cento delas pague o suficiente para esse criador viver. Só é possível pensar que isto é um futuro radioso quando se pensa que o trabalho criativo é gratuito. Mas o trabalho criativo não é gratuito, e quanto mais sofisticado for, quantas mais horas e talento requer, mais caro é. A ideia de que o freeware é gratuito, por exemplo, é ilusória: quem o paga, paradoxalmente, é quem o faz - e quem ganha com isso é quem o usa. É o mundo às avessas.
Outro modelo do nosso futuro digital é na realidade bem velho: é apenas o triste conceito da televisão aberta. Na televisão aberta, o consumidor não paga directamente os filmes, notícias e documentários que consome. Paga indirectamente, comprando produtos que são mais caros para poderem ser publicitados na televisão, e são esses anunciantes que pagam directamente o que o consumidor tem a falsa impressão de consumir gratuitamente. O gratuito, claro, sai caro. Como os anunciantes estão interessados em atingir o maior número possível de consumidores, impera na televisão aberta o populismo. A Internet está a ficar cada vez mais igual à televisão aberta, precisamente porque vive da publicidade e a publicidade vive da quantidade bruta de pessoas que a consomem.
O nosso presente digital é feito de grandes companhias a ganhar muito dinheiro à custa da frivolidade populista e da exploração de criadores talentosos que tornam a Internet interessante mas que vêem o dinheiro passar ao lado. Como pode alguém pensar que este mundo é maravilhoso? Bem, para o director da Wikipédia, por exemplo, é realmente maravilhoso. Esta enciclopédia é feita com o trabalho gratuito de muitas pessoas. Quem quiser, pode fazer donativos. E há sempre quem faça - os tais cerca de um por cento. Mas precisamente porque a Wikipédia é gratuita, todo esse dinheiro vai para o director, advogados e secretárias - mas não para quem realmente escreve a Wikipédia. É este o verdadeiro rosto da nova economia digital: escravatura de cara alegre.

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Este interessante texto passou um bocado ao lado da nossa blogosfera, mais preocupada que está em seguir o rançoso dia-a-dia da vida política. Trata de questões importantes como o significado e o valor do trabalho criativo e também das negociatas que se fazem à sobra dos aparentemente bem intencionados fornecimentos gratuitos.

Eu até acho que o nosso sentido crítico devia ser estendido a muitos outros domínios onde as lógicas do zero, ou do preço subsidiado, funcionam tais como: as várias "tolerâncias zero", os "zero acidente", os "zero calorias", o "software livre" e os serviços "gratuitos" prestados por empresas ou pelo Estado Social.

O método consiste em perguntar sempre: (1) quem usa realmente essas gratuitidades ? (2) quem é que acaba por pagá-las ? (3) quem é que enriquece pelo facto de elas existirem ?

A Nova Queda de Roma


Notas soltas


I – A suposta carta do almirante Rosa Coutinho
Há tempos António Barreto, na sua crónica que publica regularmente aos Domingos no Público, comentou muito favoravelmente um livro recentemente editado e que se chama Holocausto. Este trata da descolonização e dos primeiros anos de independência de Angola. Nesse livro aparece em fac-simile uma carta forjada do almirante Rosa Coutinho ao dirigente do MPLA, Agostinho Neto, e que António Barreto dá como verdadeira, comentando horrorizado o seu conteúdo
O assunto foi pouco referido nos media, no entanto, JoãoTunes primeiro, no Água Lisa, e depois Victor Dias, no Tempo das Cerejas, aqui e ali, na blogosfera, e Ferreira Fernandes em comentário assinado no Diário de Notícias pegaram no assunto e denunciaram a marosca.
Esperava-se que António Barreto, reconhecendo ter citado uma carta forjada, se retratasse e pedisse desculpa ao visado. No último Público de Domingo (27/04) aparece finalmente uma desculpa de António Barreto e um grande artigo, bastante crítico em relação ao cronista, do provedor dos leitores daquele jornal, Joaquim Vieira.
A história está pois contada nos sites que fui indicando. Quem a quiser seguir pode ir clicando aqui e ali e rapidamente se aperceberá do conteúdo do livro e do artigo do António Barreto.
Nesta história não sei o que mais me espanta se a suposta ingenuidade de António Barreto, que afirma textualmente, no desmentido referido: “O almirante Rosa Coutinho acaba de negar, na revista Visão, a autoria da carta. Lamento ter utilizado como argumento esse documento apócrifo. As minhas desculpas ao senhor almirante e aos leitores”, se a desvergonha de alguém que acredita que uma carta, em papel timbrado, do alto-comissário para Angola poderia conter os desplantes referidos na sua crónica. Só um espírito embotado pelo pior anti-comunismo e com pouca coragem poderia produzir estas duas coisas: citar a carta e desmenti-la posteriormente, como se fosse um pormenor sem qualquer importância

II – A ignorância dos jovens sobre o 25 de Abril
Relataram os media que Cavaco Silva no discurso que pronunciou na Assembleia da República, no dia 25 de Abril, referiu-se à ignorância dos jovens sobre o significado daquela data. Para isso citou um inquérito de opinião efectuado pela Universidade Católica em que foram feitas três perguntas a que os jovens não souberam, na sua maioria, responder. A primeira era qual tinha sido o primeiro Presidente da República eleito democraticamente depois do 25 de Abril, a segunda, quantos Estados compunham actualmente a União Europeia e a terceira, se o PS tinha obtido ou não a maioria absoluta nas últimas eleições.
Acho que anda tudo doido, como é que a partir destas três perguntas, em que duas delas nada têm a ver com o 25 de Abril e outra só indirectamente, já que o Presidente da República foi eleito muito depois, se pode induzir que os jovens desconhecem o significado aquela data. A única conclusão que se pode tirar é de que têm fracos conhecimentos sobre a história contemporânea de Portugal, não têm informação suficiente sobre a União Europeia e não estão a par da situação política actual. Nada ficamos a saber sobre a ignorância dos jovens relativa ao 25 Abril.
Esta história, que motivou um variado leque de comentário dos nossos cronistas, tem no entanto pouco tem a ver com a realidade.
Isto porque o estudo da Universidade Católica, denominado Os Jovens e a Política, é um inquérito muito mais extenso, em que aquelas três perguntam estão relacionadas com os conhecimentos políticos da população em geral e não com o 25 de Abril em particular e não se dirigem exclusivamente aos jovens.
O próprio Presidente da República no seu discurso faz uma distinção entre os objectivos do estudo, por ele encomendado à Universidade Católica, e a relação da juventude com o 25 de Abril. No entanto, ao reproduzir unicamente aquelas três perguntas e ao limitar as respostas àquela faixa etária é também responsável pela confusão gerada, que levou os media, a partir daquelas perguntas, a afirmar que os jovens desconheciam o que tinha sido o 25 de Abril.
Mesmo o Público, que cita o estudo, é capaz de afirmar que “o que mais impressiona o chefe de Estado é "ignorância" dos jovens, pois muitos não sabem sequer o que foi o 25 de Abril, nem o que significou para Portugal”. Quanto à Televisão Pública foi o descalabro, não só tirou iguais conclusões sobre a ignorância dos jovens relativamente à data, como de seguida, em inquérito de rua, foi interrogar outros jovens com as mesmas perguntas, chegando à conclusão que eles nada sabem. Alguns, por acaso, até sabiam.
Depois, para demonstrar o desinteresse do cidadão por aquela data, vai à Costa da Caparica interrogar alguns banhistas porque é que eles estavam ali a apanhar Sol e não a comemorar o Dia da Liberdade. Já se sabe este tipo de perguntas só amplia, por contraste, o desinteresse das pessoas pelo significado da data. Quando a participação cívica se torna obrigação e dever e não puro prazer, o cidadão encontra imediatamente justificações para fugir a essa participação. Por isso, parece-me sempre de mau gosto, e um apelo sub-reptício à inacção, quando um inquérito televisivo opõe praia ou férias a deveres de cidadania.
Quanto à interrogação do Presidente da República relativa à ignorância dos jovens sobre o 25 de Abril, ao menos que, para a próxima, peça que ponham uma pergunta sobre aquela data.
PS.: Este texto foi publicado igualmente em http://trix-nitrix.blogspot.com/

terça-feira, abril 29, 2008

Viver como se o PSD não existisse

























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Eu sei que é difícil, que a tentação de comentar é muito forte, que os episódios são caricatos, que isto afecta a democracia, que é quase incontornável, que nos invade a casa pela TV. Mas a bem da nossa sanidade mental não poderíamos tentar viver como se o PSD não existisse ? Deixo este desafio. Eu ando a tentar.

(os bonecos foram publicados na VISÃO há uns tempos)

segunda-feira, abril 28, 2008

She makes me want to be a better man

















Não sei se a Helen Hunt é inteligente mas lá que parece... Confesso que tenho um fraquinho.
Vem isto a propósito de uma notícia do Expresso (é um bom pretexto não é ?) em que nos informam da estreia recente de um filme realizado por Helen Hunt, "Then she found me" (isso querias tu). Claro que eu nunca esquecerei "Melhor é impossível" (As good as it gets), em que ao lado de Jack Nicholson, "viveu" uma das mais belas declarações de amor da história do cinema.
Aqui fica para quem não viu ou para quem queira recordar.
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YOU MAKE ME WANT TO BE A BETTER MAN



sábado, abril 26, 2008

O meu 26 de Abril



Acordei com um barulho inusitado. Não fazia ideia nenhuma de quanto tempo dormira ou mesmo de como viera do interrogatório dos pides até à cela.
A verdade é que não era normal ouvir tanto ruído através daquela porta.
De repente um grito: "assassinos, querem-me matar !"
Saltei da cama e cambaleei até à janela. Um fuzileiro rondava lá em baixo com a G3 às costas, como eu tantas vezes vira fazer nos quartéis da marinha. Algo tinha acontecido pois normalmente não se avistava ninguém daquela janela.
O ruído no corredor da prisão não cessava de aumentar e, sem mais, abre-se o postigo da porta e vejo aparecer a barbicha do rapaz da cela em frente à minha, que eu só conhecia por espreitar pela fresta quando lhe entregavam a marmita da comida (soube mais tarde tratar-se do Miguel Judas);
"diz que houve uma revolta militar e que vamos ser libertados", e desapareceu.
Ainda a tentar encaixar o significado daquilo que ouvira vejo a porta da cela projectar-se para trás e aparecer a figura imponente do "calhau com olhos", tenente Xavier num contexto mais formal.
Era um latagão de um metro e noventa, quadrado, com uma cara enorme pontuada por algumas bexigas. Fora meu instrutor nos fuzileiros e depois, ao mesmo tempo que eu, fizera a comissão na Guiné.
Olhou para mim e disparou: "qué que fazes aqui ?". Eu não tinha qualquer razão para supor que o "calhau com olhos" fosse um gajo de esquerda, antes pelo contrário; "sou acusado de pertencer ao partdo comunista", balbuciei. Fez uma expressão de incredulidade.
"Vai lá para fora" foi o mais elucidativo que o "calhau" conseguiu articular.
Soube depois que o grito que eu ouvira minutos atrás "assassinos, querem-me matar" fora de um preso que vira entrar o "calhau" na sua cela, de G3 a tiracolo, a dizer-lhe, sem mais nem menos, "lá para fora".
No corredor da prisão havia um caos total, cada um tentando perceber se íamos ser fuzilados ou libertados. Ao fim de algum tempo lá apareceu um oficial mais polido que nos explicou o que estava a acontecer.
Então foi só esperar que a junta de Salvação Nacional aceitasse libertar todos os presos e não apenas alguns. A comunhão dentro da prisão era completa e reencontrei a minha mulher que estivera noutra ala.
A meio da noite fomos libertados através de um corredor que rompia uma multidão de milhares de pessoas, que gritavam e erguiam punhos, numa experiência absolutamente inesquecível.
Quando dei com os meus sogros e o meu filho de três anos verifiquei que tinham o para-brisas partido. Alguém que circulava entre a multidão fora acusado de pertencer à PIDE e, na refrega, o vidro partira-se.
Mas quem é que se ralava com uma ninharia dessas ? desandámos todos para casa.
O "calhau com olhos" nunca mais o vi. Gostava de lhe agradecer.
Disseram-me há dias que já morreu. As voltas que a vida dá...
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sexta-feira, abril 25, 2008

SEMPRE ?

quinta-feira, abril 24, 2008

O quotidiano em Bissau - 1969

Tem andado acesa na blogosfera a discussão sobre o significado da deserção e da participação na guerra colonial.
Em comentário recente feito no entre as brumas da memória verifiquei que me equivocara quanto à fonte das informações que obtinha em Bissau sobre o Maio de 68 (eu parti para Bissau como tenente fuzileiro no dia 1 de Maio de 68 e a minha mulher algures em Agosto de 1968).

Por causa disso folheei a correspondência dessa época e resolvi procurar respostas também em imagens do quotidiano na nossa modesta casa. As imagens são do princípio de 1969.



A Maria Rosa, que era professora no liceu, estava provavelmente a preparar uma aula na nossa "sala de estar". Em cima da mesa pode ver-se, para além de um maço de Marlboro, um Diário de Lisboa cuja manchete era "Nixon queria...". Sobre a cama ao fundo há mais jornais.
À direita pode ver-se a rudimentar instalação esterofonica e os discos.


As leituras antes de adormecer, à sombra de um engenhoso candeeiro que eu construíra com cabaças. O livro é o "Fim de Semana na Guatemala" do Miguel Angel Asturias.




Outra perspectiva do nosso quarto. O que parece ser um roupeiro, com uma frente de pano, era onde tinha o "laboratório" com que produzia fotografias.
A estante rasteira tinha os livros que, consegui identificar ampliando a fotografia, incluíam as peças do Brecht, "O Judeu" e a "Crónica dos Pobres Amantes".
Em cima do banco de madeira são visíveis alguns exemplares da "Vida Mundial".
Na parede à esquerda uma esteira suportava um conjunto de fotografias, uma espécie de altar ideológico. Lá podem ver-se referências "Bonny and Clyde", Che Guevara, a guerra do Vietname, e o Maio de 68 (com a famosa fotografia dos líderes abraçados em manifestação - ver adenda no fim do post).



Pensei que este documento podia ser interessante para se perceber várias coisas; como se vivia na Guiné no período 68/69, como se tentava manter o contacto com a cultura, quais eram os temas que mais tocavam jovens como nós e também o que, apesar de tudo, naquele contexto era tolerado mesmo a um oficial da marinha de guerra.


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Adenda:




É esta a fotografia que figura na esteira em baixo à esquerda. Alain Geismar, Daniel Cohn-Bendit e Jacques Sauvageot desfilam em Paris.

quarta-feira, abril 23, 2008

Ainda o 18 de Abril de 1974

Referi há dias, neste post, o dia 18 de Abril de 1974 e a forma como então fui preso pela Pide.
Entretanto descobri uma interessante crónica do Notícias da Amadora, publicada em 2003, que descreve o que aconteceu no jornal nesse mesmo dia e que, obviamente, tem muito a ver com o quadro em que se inscreve o meu caso.

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terça-feira, abril 22, 2008

O Maio de 68


De repente, senti-me interpelado pela Joana Lopes, do blog Entre as Brumas da Memória, a falar do meu Maio de 68.
O Maio de 68 apanhou-me ainda na Faculdade de Ciências. Curso “longo”.
À época eu era militante do PCP, portanto, tínhamos um grande cuidado em saber qual era a posição do PCF sobre o que se passava em França. Por outro lado, em Portugal, começava-se a travar um luta importante contra a deriva esquerdista que ia afligir o movimento estudantil nos anos subsequentes, agravada é certo pelo Maio de 68. Posso garantir que se este assunto foi falado entre alguma juventude universitária, nesses mesmos meses, a verdade é que as suas maiores repercussões se verificaram no ano escolar seguinte, com a queda do Salazar e a nomeação do Marcelo Caetano.
Entre estes dois factos passou-se também a Primavera de Praga, que só em Agosto desse ano se tornou quente, com a ocupação daquele país pelas tropas do pacto de Varsóvia.
Quanto ao Maio de 68, há pelo menos da parte dos jovens universitários comunistas um grande distanciamento em relação às movimentações estudantis, que considerávamos esquerdistas. Opúnhamo-las à responsabilidade dos operários, que aos milhões se puseram a fazer greve e que foram posteriormente apoiados e enquadrados pelos sindicatos e pelo PCF. Líamos muita literatura vinda das Edições Sociais, ligadas ao PCF, que em post posterior poderei referenciar, e que nos afirmavam categoricamente que os estudantes nunca seriam vanguarda de nada, nem eram capazes de fazer a revolução. Só a classe operária era depositária dessa possibilidade de transformação. Aceitámos portanto os acordos que os sindicatos fizeram com o patronato para conseguir melhores regalias sociais.
No entanto, fiquei sempre com a ideia, via Rádio Argel, que nunca fui capaz de confirmar, que o nosso PCP se tinha demarcado do PCF. Não sei se isto foi imaginação minha se de facto aconteceu. Sei que em debate recente no Vitória (PCP) ninguém foi capaz de confirmar esta minha suspeita.
Todos conhecem o final desta história. De Gaulle apela às tropas francesas localizadas Alemanha e um milhão de franceses, com Malraux à frente, desfilam nos Campos Elísios. O PCF e PS francês sofrem uma grande derrota eleitoral, confirmando aquilo que nós já dizíamos, que tudo não tinha passado de uma “anarqueirada”, para utilizar a célebre expressão de Bento Gonçalves.
É evidente que para alguns de nós outras esperanças despontavam a leste. Conhecíamos pelas revistas o novo cinema checo (eu era dirigente do cine-clube universitário - CCUL), sabíamos que uma época de renovação e liberdade se abria naquele país. Acreditávamos, alguns de nós, na possibilidade de renovação do paradigma socialista. Eu estava de férias, na praia, quando soube da ocupação de Praga. Indignei-me. Tinha saído de Lisboa com a convicção, partilhada com mais camaradas, que os checos iam no bom caminho. Eis senão quando, em Setembro, chego a Lisboa, e a palavra de ordem do Partido era apoiar a invasão. Valeu-nos nessa altura uma célebre carta, não me recordo a quem era dirigida, de Fidel de Castro, a justificar a invasão e a falar da atitude egoísta de alguns países socialistas que queriam ganhar dinheiro com a ajuda a Cuba: referia-se à Jugoslávia. Penso que também tenho um livrinho, que saiu nessa altura, com estas discussões. Aceitámos pouco convencidos, mas sem dúvida pensando que tinha sido derrotado um perigoso desvio direitista.
Neste ínterim, Salazar cai da cadeira e Marcelo é nomeado. O movimento associativo estudantil ganha uma nova dinâmica. Pelo menos, na Faculdade de Ciências, o novo Governo autoriza que haja um processo eleitoral para instalar de novo a Associação de Estudantes, eleita pelos seus sócios, pois estava a ser regida por uma Comissão Administrativa nomeada pelo Governo.
É nesta perspectiva que o Maio de 68 se começa a fazer sentir. Para a Reunião Inter-Associações (RIA), que agrupava todas as Associações Estudantis de Lisboa, é eleito no princípio do novo ano escolar um novo Secretariado, de que faziam parte o Alberto Costa (o actual Ministro da Justiça), à época militante do PCP, o Jaime Gama (Presidente da Assembleia da República), e ligado, julgo eu, à linha PS, o Serras Gago, não sei o que é feito dele, e a Teresa Melhano, boa amiga que há muito tempo não vejo.
Logo no início as Associações pretendem confrontar o novo Governo com a agitação estudantil e por isso são lançadas algumas manifestações e contestações. Sei que não tiveram êxito, mas que levaram a uma situação caricata, que está relacionada com o Maio de 68. Jaime Gama, em nome do Secretariado da RIA, devia levar a um plenário um moção de convocação de uma manifestação. Não o fez e a moção ficou sempre no seu bolso. Era inevitável a sua demissão do Secretariado. O seu discurso de justificação pela atitude tomada começou assim: “Lisboa não é Nanterre” e depois partia para outros considerandos de que eu já não me recordo.
Quanto às eleições em Ciências, a influência do Maio de 68 começava-se a fazer sentir. Foi criado um mural onde todos podiam escrever o que lhes apetecia. Nada disto se passava anteriormente. Os discursos dos candidatos, principalmente dos mais jovens, o que não era o meu caso – fui candidato a vice-presidente – eram muito mais soltos, os temas de Maio começavam a fazer o seu percurso. Era possível fazer reuniões, que provavelmente teriam um nome especial, de acordo com a linguagem do Maio francês, por tudo e por nada. Muitos dos participantes, alguns chegados mesmo de França reclamavam-se da míriade dos pequenos partidos existentes entre os estudantes franceses. Tive dificuldade em adaptar-me a este novo estilo, fui considerado um revisionista de direita e progressivamente fui-me afastando da Associação.
Tempo depois e na linha do Maio de 68 rebenta a crise académica em Coimbra.
Tenho a certeza que depois de Maio, e com o atraso típico de Portugal, a Universidade não foi a mesma. Já em 69, penso que no final do ano lectivo 68/69, o Secretariado da RIA cai e o Arnaldo de Matos é eleito para ele. Em Ciências nunca mais ninguém do PCP pôs os pés na Direcção da Associação de Estudantes. As direcções seguintes eram na sua totalidade “esquerdistas”. Mesmo, o “pobre” cineclube que durante tantos anos tinha sido influenciado pelo PCP acaba os seus dias com direcções do MRRP.
Penso que o Maio de 68 esquerdizou de forma irreversível, até ao 25 de Abril, o movimento estudantil. Quanto às liberdades de género, sexuais e outras, penso que, desde 62-64, elas se foram progressivamente introduzindo no estrito universo universitário, tendo-se alargado por esta época. Mas ainda me recordo que havia alguns jovens que tinham sérios problemas com os pais, que não os autorizavam a passar noites fora de casa ou mesmo a poderem sair à noite.
Estas recordações feitas de chofre, sem recurso a papeis ou a bibliografia, poderão vir a ser completadas se para tanto acharem qualquer interesse nestas minhas memórias.

PS.: Este texto foi publicado igualmente em http://trix-nitrix.blogspot.com/

A contabilidade não funciona na guerra

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com os meus homens em Ganturé

O artigo de Pacheco Pereira no Público sobre a guerra colonial e as respostas de Vitor Dias suscitaram a minha atenção e o desejo de dar um testemunho pessoal.
O que eu acho curioso nesta discussão é que está implícita a ideia de que fugir à guerra estava ao alcance de qualquer um, que era uma decisão possível para todos de forma igualmente fácil.
Como se as diferenças económicas, de classe e de instrução não tivessem influência nesta questão.
Eu, que era militante do PCP, estudante universitário vindo de uma família modesta, nunca percebi verdadeiramente o que deveria fazer se decidisse não ir para a guerra.
A generalidade dos jovens portugueses vivia situações bem piores do que a minha. Para a esmagadora maioria a hipótese de fugir nem sequer se colocava. Por isso, embora o texto do JPP seja excelente, ele está fundamentalmente enviesado, tomando uma pequena parcela dos jovens portugueses pelo todo.
A orientação do PCP aconselhava a partir para a guerra juntamente com os outros compatriotas e a tentar usar a situação para trabalho político.
Devo dizer que nos fuzileiros, onde me integrei como tenente de 1968 a 1970, numa comissão na Guiné, havia muita gente de esquerda especialmente entre os marinheiros e cabos. Havia muitas trocas de impressões de carácter político entre nós.
Assisti em pleno mato a uma explosão de alegria das tropas sob o meu comando (cerca de duzentos homens) quando souberam, via rádio, que Salazar caíra da cadeira e fora afastado do governo.
Também tive oportunidade de viver em Bissau, em 1969, uma revolta dos fuzileiros. Tomaram conta do quartel e recusaram submeter-se à autoridade do Comando Naval da Guiné até que as suas reivindicações fossem satisfeitas.
Ninguém se atreveu a desalojá-los militarmente e o comandante da Marinha na Guiné foi forçado a conferenciar com os insurrectos no próprio quartel e a ceder às suas reivindicações.
Penso que uma acção como esta indicia um elevado grau de organização.
Há no entanto uma história que me marcou mais do que certas situações de combate e que escapa a estas contabilidades ridículas da coragem de quem foi e de quem não foi à guerra.
A certa altura um grupo do PAIGC foi interceptado quando atravessava o Cacheu numa piroga e bombardeado. Os corpos ficaram a boiar no rio e, como as correntes sofriam a influência das marés, passavam em frente ao meu acampamento em Ganturé, umas vezes para baixo outras vezes para cima.
Farto daquela cena tétrica, meti-me num bote de borracha e resolvi ir recolher um dos corpos. Tratava-se de um dirigente ou "comissário político" como então se dizia.
Ao abrir a mochila do homem encontrei, entre outras coisas, encharcado, um livro que lera pouco antes na minha própria casa. Um livro que guardo ainda: "Filosofia Marxista - Compêndio Popular", V. G. Afanassiev, Editorial Vitória, Rio de Janeiro.

segunda-feira, abril 21, 2008

Rock 'n' Roll

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"Rock 'n' Roll", peça estreada em Junho de 2006 no Royal Court Theatre em Londres e agora em cena no Teatro Aberto. Os anos de 1968 a 1990, do movimento estudantil à queda do Muro de Berlim, são apresentados de uma dupla perspectiva: a partir de Praga, onde uma banda de rock 'n' roll se torna um símbolo de resistência ao "regime socialista", e a partir de Cambridge, onde o amor e a morte marcam a vida de três gerações da família de um filósofo marxista.
Antes de mais é importante frisar que esta interessantíssima peça de Tom Stoppard se integra num movimento cada vez mais notório de regresso aos anos finais da década de 60 como era mítica que podia ter aberto a porta a tudo aquilo que "a esquerda" gostava de ter alcançado (ver o blog da minha amiga Joana). Como alguém que tivesse escolhido a alternativa errada numa bifurcação e, muitos quilómetros depois, resolvesse voltar para trás para poder optar correctamente.
Este retorno ao passado, mais do que a preservação de uma memória respeitável que pensa ser, é um sinal da falta de perspectivas à esquerda. O texto da peça ilustra aliás muito bem a crise em que a esquerda actual se encontra.


Ao longo das cenas que decorrem no meio académico, intelectual e politizado, é patente a confusão permanente entre os vários níveis de problemas que afligem os personagens: as questões teóricas da transição do capitalismo para o socialismo, as pulsões libertárias e de luta contra a opressão, os dramas pessoais e as modas comportamentais e de "life style". Neste novelo é realmente difícil encontrar um nexo. Cada um dos níveis tem significados muito diferentes e a sua abordagem "ao molho" não ajuda nada a sua compreensão. Vejamos porquê:

Em termos marxistas a transição para um modo de produção socialista, se e quando se verificar, é um processo longo de transformação das tecnologias da produção, das relações sociais e dos comportamentos individuais. Os modos de produção não se subordinam a tipos específicos de regime ou de sistema político; como se sabe o capitalismo vigente funciona tanto em democracias como em estados opressivos ou confessionais, em regiões dominadas por monarquias ou por senhores da guerra e mesmo em estados que se dizem de inspiração socialista.

Julgo ser hoje claro para muita gente que os "países do leste" não desenvolveram um modo de produção alternativo constituindo, isso sim, regimes e fórmulas políticas que pretendiam impor coercivamente uma visão de futuro a realizar, cuja bondade não cabe agora discutir, mas que depois se transformaram em burocracias cada vez mais fechadas sobre si mesmas. Hoje é possível ver como no período retratado em "Rock 'n' Roll", erroneamente e de forma inconsciente, se fazia uma correspondência biunívoca entre os regimes políticos do leste e o socialismo (é nesse contexto que o Professor Max expressa a sua incapacidade para compreender as razões do desmoronamento do "sistema socialista ").
Mas o mais grave é que ainda hoje, no século XXI, a maior parte dos militantes de esquerda estão convencidos de que para "implantar o socialismo" basta mudar o regime ou mesmo o governo de um país.

A luta pela liberdade e pela libertação nacional pode acontecer, e tem acontecido, contra os mais variadas tipos de potências opressoras. Não é necessáriamente anti-comunista (foi até sob a bandeira comunista que muitos países se formaram ou libertaram), assim como não está necessáriamente associada a modas e estilos de vida como o consumo de drogas ou a música rock. Em "Rock 'n' Roll", da maneira como os níveis estão misturados durante a peça, pode-se ser levado a pensar que sim.

A transformação das convicções e preferências em resultado das modas sociais (ao nível da indumentária, da música, dos consumos) pode pôr em causa sistemas ou regimes políticos mas, pelas razões já enunciadas, tal não se verifica em relação aos modos de produção. Toda a fúria libertária dos anos 60 foi, por exemplo, perfeitamente digerida pelo sistema capitalista embora tenha cavado muito fundo nas práticas sociais.

Por isso recomendaria prudência a todos aqueles que querem ressuscitar a "década de ouro" pois não será numa nova transformação das "mentalidades" que encontrarão a chave que procuram.
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A peça é servida por um conjunto de actores principais com uma excelente prestação com destaque para uma impressionante Beatriz Batarda.

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Autor: Tom Stoppard
Versão: João Lourenço, Vera San Payo de Lemos
Dramaturgia: Vera San Payo de Lemos
Cenário: João Lourenço; Henrique Cayatte
Figurinos: Maria Gonzaga
Luz: João Lourenço, Melim Teixeira
Encenação: João Lourenço
Interpretação: Afonso Pimentel; André Patrício; Beatriz Batarda; Carlos Gomes, Francisco Pestana, Jorge Gonçalves; Kjersti Kaasa; Márcia Leal; Paulo Oom; Paulo Pires; Rui Mendes; Sara Cipriano; Sílvia Rizzo;

Mestres na tacada, vá lá...

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Diário da República, 2ª Série, nº51, 12 de Março de 2008
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domingo, abril 20, 2008

Ponto da situação


Pela leitura rápida que fiz de alguns blogs de referência reparei como as minhas intervenções na blogosfera se encontravam tão desfasadas da realidade. Acontecia-me a mim o mesmo que aos doutores da Igreja que, na Bizâncio cercada, continuavam a discutir o sexo dos anjos. Por isso resolvi entre dois post sobre Leituras de um Convalescente voltar um pouco à realidade.


I – Eleições italianas

Primeiro gostaria de manifestar o meu espanto e tristeza por os comunistas italianos ou os seus herdeiros não terem qualquer representação parlamentar. Aquele que tinha sido o mais forte partido Comunista do Ocidente, que maior contribuição tinha dado para a actuação dos comunistas em regime de democracia parlamentar e que era herdeiro do legado desse grande teórico que tinha sido Antonio Gramsci, deixa de estar representado no Parlamento e no Senado italianos. Um pesadelo.

A nossa direita exultou. Teresa de Sousa afirma no Público, de 16/4, que esse facto “representa uma saudável clarificação” e continua: “aliás, se há um sinal de novidade e de regeneração do sistema político italiano ele vem daí – da esquerda que não é essa "esquerda". Talvez esperançada que em Portugal se dê alguma vez essa mesma clarificação, que o PCP e BE deixem de vez de estar presentes no Parlamento e que o PS sozinho e sem qualquer constrangimento possa afirmar que representa toda a esquerda.

Segundo afirmar o óbvio, os italianos gostam imenso destas personagens histriónicas, que de Mussolini a Berlusconi, sempre representaram o pior da vida política italiana. Mas isto é uma constatação, que não justifica em nada o que se passou.

Terceiro referir por graça que uma das causas que foi apontada por Daniel de Oliveira, no seu interessante artigo no Arrastão, para a perda de votos dos comunistas foi a sua integração numa coligação, a que chamaram Esquerda Arco-Íris (Sinistra L’Arcobaleno), tendo a foice e o martelo desaparecido dos boletins de voto. Pelo contrário, em Portugal o PCP sempre concorreu debaixo de outra sigla (excepto nas duas primeiras eleições do pós-25 de Abril) e foi a direita, com a cumplicidade do PS, que obrigou a incluir nos boletins de voto o seu símbolo.

É evidente que tudo isto são opiniões avulsas, de quem está longe da realidade italiana e não dispõe de instrumentos de apreciação que lhe permitam fazer a análise do resultado das eleições naquele país.


II – O “entendimento” nos professores

Já muito se escreveu sobre este acordo, que os sindicatos designam por “entendimento”, entre os professores representados pelos seus órgãos de classe e o Ministério da Educação.

Penso que todos aqueles que, como o Miguel Sousa Tavares, queriam uma política de porrete para meter os sindicatos na ordem se vêm agora frustrados porque estes foram a solução do problema e não, como eles julgavam, a causa do mesmo.

Por outro lado, achei graça que uns anos depois da vaga esquerdista ter sido derrotada neste país, ainda alguns ingénuos e outros ressabiados, como a Ana Benavente, porque não tiveram o protagonismo que gostariam de ter, clamam que os sindicatos traíram a vontade dos professores. Já se sabe que os media fizeram imediatamente grande eco destas posições e assim entrevistaram um professor que declarou que mais valia morrer de pé do que ceder. Só a grande ingenuidade e a falta de experiência política-sindical pode levar alguns a fazerem estas declarações e a tomarem esta posição. Quem já anda nisto há muitos anos e se bateu sempre contra o esquerdismo e a falsa radicalidade pode perceber que este tipo de posições surge sempre quando a luta abrange novas camadas. A falta de experiência histórica é sempre má conselheira.


III - A lei do divórcio

Por minha grande ignorância eu pensava que o problema do divórcio estava resolvido em Portugal, eis senão quando o BE apresenta uma lei que, segundo eu depreendi, acabava com o divórcio litigioso e permitia, por opção única e exclusiva de um dos cônjuges, a separação. Na altura não dei grande importância ao assunto. Mas eis que o BE volta à carga, depois de ver o seu primeiro projecto chumbado, e o PS no mesmo dia anuncia que irá apresentar um lei que, com diferenças que parece que são significativas, vai no mesmo sentido. Achei em princípio bem.

Feito o anúncio, não é que a Igreja faz constar que está contra e um dos seus membros chega a clamar que estávamos perante um Estado “militantemente ateu”. “Coitado” do Sócrates, podem-no acusar de muitas coisas mas desta é que ele de certeza não estava à espera.

A Igreja tem, quanto a mim, toda a liberdade para se pronunciar sobre este assunto, não pode é fazer afirmações extravagantes como aquela que reproduzo e acho que é um disparate vir clamar contra o fim do divórcio litigioso, quando este, segundo as estatísticas, não representou no ano passado mais do que 6% do total de divórcios e hoje os que se realizam por mútuo consentimento estão, parece-me, bastante facilitados sem, que eu conheça, objecções de fundo daquela instituição.

Mas o mais grave, não foi a posição da Igreja, foi o que disseram os comentadores de direita, desde Vasco Pulido Valente a Constança Cunha e Sá, que criticaram e disseram que estávamos perante uma grave ofensa à Igreja feita pelo Governo do PS. Estas críticas são feitas unicamente porque pensam que o PS cedeu ao BE, ou seja, às “causas fracturantes” deste partido, abandonando por instantes a sua política de direita de que eles tanto gostam. Até porque é gente que nem católica é, que já se divorciou inúmeras vezes e que portanto não é por razões de fé, mas pela sua atávica formação de direita que toma posição contra esta legislação.


Como o texto já vai longo deixo para outra oportunidade o caso Fernanda Câncio e a demissão de Luís Filipe Menezes.
PS.: Este texto foi publicado igualmente em http://trix-nitrix.blogspot.com/

Precisamos de um novo Marx ?

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O DN de ontem, Sábado 18, inseria um texto de Manuel Maria Carrilho que desenvolve uma linha de raciocínio muito próxima das coisas que eu venho dizendo e escrevendo há já alguns anos (por exemplo em Do Capitalismo para o Digitalismo, Campo das Letras 2003) .

Vejamos como Carrilho analisa as eleições em Itália:

"Veltroni e o novo Partido Democrático assumiram bem o balanço crítico das experiências passadas. Mas faltou-lhes o que por toda a parte falta à esquerda, uma crítica do capitalismo actual que inspire novas propostas. Sem essa crítica, é a própria esquerda que se dissolve num reformismo cada vez mais incaracterístico."

Eu tinha recentemente escrito um comentário no "Entre as brumas da memória" nos seguintes termos:

"Voltando a Itália, onde já vivi alguns meses, penso que estão a seguir um caminho que viria a ser o nosso caso não tivessemos o Partido Socialista.
A Esquerda, lá como cá, contesta o sistema em teoria mas acaba a pedinchar umas migalhas para minimizar as situações mais aflitivas.Toda a gente percebe que não tem nenhuma ideia para superar as contradições sociais de forma consistente.
Quando as coisas apertam como estão a apertar, no plano económico e social, as pessoas ficam obcecadas com a segurança do seu modo de vida e deixam de achar piada a coisas como o casamento de homossexuais e outras "causas" em que a esquerda normalmente se refugia.
Penso que na votação em Itália esta questão terá tido o seu peso.
Em Portugal temos uma situação híbrida com o PS no centro a manobrar ambas as vertentes, fazendo no plano estritamente económico políticas "mainstream"."


Duvido que Carrilho conheça aquilo que escrevi mas isso não me impede de saudar a companhia de tão notável colega.

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sábado, abril 19, 2008

Mais perto do que é importante.....


Metade do país está pendente de uma dúvida dilacerante: vão ou não os jogadores do Boavista fazer greve ?
A outra metade vê os seus princípios abalados perante a hipótese de os sócios do Benfica fazerem uma manifestação contra os actuais dirigentes.
Os comentadores desdobram-se em glosas e conselhos, nos jornais, na rádio, na TV:
- "os jogadores do Boavista são profissionais responsáveis, não irão infligir tão grande prejuízo aos adeptos, independentemente de continuarem a lutar pelos seus direitos com outros meios";
- "neste momento dificil para a vida do clube, os adeptos do Benfica devem expressar a sua vontade de mudança de forma que não atinja a imagem do clube; já não estamos no PREC"
Aqui está o País profundo, o Povo real.
É normal que médicos, enfermeiros, professores, etc. façam greve independentemente dos prejuízos causados aos cidadãos. Futebolistas, não!
É aceitável que polícias e militares se manifestem na rua e deixem bem visíveis as suas incapacidades. O aparelho do estado pode mostrar fraqueza, o maior clube português não!
Trinta e quatro anos depois do 25 de Abril, os 3 F's continuam a dominar a nossa cultura como povo. Futebol, foleirice, f.......

sexta-feira, abril 18, 2008

Um caso como muitos outros, em Abril

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Há exactamente 34 anos fui preso pela Pide. Quando saía de casa para o emprego, na praceta adjacente, fui interceptado por cinco ou seis homens que me forçaram a subir de novo ao terceiro andar.
Obrigaram-nos a sentar, a mim e à minha mulher, enquanto passavam a casa a pente fino perante o espanto do meu filho Mário de três anos. Encontraram vários livros, tanto romances como ensaios, que consideraram suspeitos e que apreenderam. Também apreenderam algumas fotografias de índole pessoal.
Numa incompetência que então me pareceu miraculosa manipularam e acabaram por deixar intacto um enorme pacote, amarrado com uma corda, que continha centenas de Avantes.
Depois disso ordenaram-me que os acompanhasse para me fazerem algumas perguntas.
Uma hora depois tive a horrível experiência de ouvir a chave da cela a rodar metálicamente nas minhas costas. Contara sem dar por isso, uma a uma, todas as portas que se tinham fechado desde que entrara em Caxias.

quarta-feira, abril 16, 2008

Leituras de um convalescente II – Ryszard Kapuscinski (1932-2007)


Neste conjunto de leituras que fui fazendo durante a minha convalescença referir-me-ei, por conveniência de apresentação, a dois livros que li do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski, falecido o ano passado.
Há muito que conhecia as traduções que regularmente a Campo das Letras vinha fazendas das reportagens que aquele autor fazia dos diversos conflitos africanos. No entanto, porque o tema nunca me pareceu suficientemente aliciante, nunca tinha adquirido qualquer dos seus livros, até que finalmente, porque o assunto me parecia mais próximo das minhas preocupações políticas, resolvi comprar e ler O Império (Campo das Letras, 2005).
É um livro profundamente crítico do que foi o”império” soviético e que descreve bem o seu estertor final. Relembro unicamente o primeiro capítulo, passado durante a juventude do autor, em que este descreve de forma profundamente negativa a chegada das tropas soviéticas à sua aldeia natal. Esta ficava situada naquela parte da Polónia que foi atribuída pelo pacto germano-soviético à URSS e que foi ocupada por esta em Setembro de 1939, quando Hitler invadiu a Polónia. Havia razões históricas para a URSS a reivindicar e ocupar aqueles territórios, pois ficavam a leste de uma linha que o insuspeito Lord Curzon tinha estabelecido no final da I Guerra Mundial como fronteira natural entre a Polónia e o nascente Estado soviético e que aquela ocupou por ter saído vitoriosa na guerra que travou contra este. Eram territórios da Ucrânia e da Bielo-Rússia, que ainda hoje continuam a fazer parte daqueles dois países. No entanto, isso não autorizava a URSS cometer as barbaridades que se conhecem, como o massacre dos oficiais polacos em Katyn, nem o que é descrito pelos olhos de uma criança no livro de Kapuscinski.
Impressionado pela leitura daquele livro pus-me a ler durante o período de convalescença as Andanças com Heródoto (Campo das Letras, 2007) e o recentemente publicado Os Cínicos Não Servem para Este Ofício, Conversas Sobre o Bom Jornalismo (Relógio de Água, 2008).
Do primeiro livro, que não achei especialmente interessante, retirei a história da primeira viagem do autor ao Ocidente, a Roma, a caminho da Índia para fazer uma reportagem sobre aquele país, que na altura tinha adquirido a independência, e a homenagem, sempre constante ao longo de todo o livro, a Heródoto, que, com o seu livro Histórias, tinha dado origem na Grécia antiga à história, como disciplina credível.
Relembro, porque gostei muito do filme, O Paciente Inglês, de Anthony Minghella, recentemente falecido, que transportava sempre consigo um exemplar das Histórias de Heródoto.
Quanto ao pequeno livro de Kapuscinski sobre jornalismo, para além de uma entrevista em que o autor denuncia a situação actual em que se faz jornalismo, com os jornalistas completamente submetidos aos grandes monopólios dos media, pareceu-me ser um livro inútil, a viver do prestígio do seu autor. Aquele não passa de um conjunto de entrevistas que Kapuscinski deu em Itália nos longínquos anos de 90 e que a organizadora, Maria Nadotti, reuniu para uma edição original em 2002, e que foi recuperada em 2008, à míngua de novas ideias, por uma editora nacional.
Espero no próximo capítulo voltar a temas mais interessantes e convidativos.
PS.: Este texto foi publicado igualmente em http://trix-nitrix.blogspot.com/

Centro de Exposições de Odivelas







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Descobri hoje, por mero acaso, a existência do Centro de Exposições de Odivelas.
Trata-se de um espaçoso e moderno edifício onde decorrem múltiplas actividades expositivas, educativas, e lúdicas.
Neste momento podem ver-se lá duas magníficas exposições; uma de pintura de Nadir Afonso e outra de esculturas de Laranjeira Santos (exemplos das obras destes autores ilustram este texto).
O programa de actividades do Centro inclui entre outras coisas tertúlias, ateliers, sessões de jazz, visitas guiadas de grupos de crianças.
Fico sempre encantado com estas experiências que, longe das atenções mediáticas, fazem um importantíssimo trabalho de divulgação cultural.



Leituras de um convalescente – O nazismo e o fim de Hitler


Saí do hospital com uma contratura lombar. Um jeito, ao deslocar-me na cama, no último dia de internamento, fez com que em vez de sair do hospital pelo meu próprio pé tivesse que ser transportado numa cadeira de rodas. Daí resultou que a primeira semana em casa fosse passada deitado na cama, com um saco de água quente nas costas. E, para entreter o tempo, livros à volta. Já não era a primeira vez que isto me sucedia e em qualquer dos casos pude sempre pôr em dia as minhas leituras.
Começar por onde? Por aquele que me pareceu mais simples e mais descritivo. Assim, estriei-me com o livro de António Louçã e de Isabelle Paccaud, O Segredo da Rua do Século, Ligações perigosas de um dirigente judeu com a Alemanha nazi (1935-1939) (Fim de Século, 2007). É a descrição do desmoronar de uma reputação, de alguém acima de qualquer suspeita, que sempre, no entanto, tivera com o fascismo português as melhores relações, mas de quem não se suspeitava até ao momento que tivesse sido condecorado pela Alemanha nazi. Livro bastante interessante, relata inclusivamente o papel que o jornal O Século desempenhou na propaganda daquele regímen entre nós. Estas revelações provocaram alguns engulhos à comunidade judaica portuguesa, que não acredita naquelas ligações e apareceu em força em sua defesa. Quanto a mim não me restam dúvidas. Sempre me recordo o nome do Moses Amzalak como um dos figurões do salazarismo.
Passei em seguida para A Queda, Hitler e o fim do Terceiro Reich, de Joachim Fest (Guerra e Paz, 2007). Em jeito de chamariz a editora acrescenta na sua capa “O livro que deu origem ao Filme”. De facto, este livro juntamente com o depoimento da última secretária de Hitler, Traudl Junge, expresso em Até ao Fim, Um relato verídico da secretária de Hitler (Dinalivro, 2005), que eu já tinha lido, inspiraram o argumento do filme A Queda, Hitler e o fim do Terceiro Reich, do realizador alemão Olivier Hirschbiegel. Este filme tinha provocado em mim um grande impacto na altura em que se estreou, ao ponto de ter comprado o DVD respectivo quando este apareceu à venda e tê-lo visionado quase fotograma a fotograma. Isto porque me impressionou de sobremaneira o universo claustrofóbico em que os dirigentes do III Reich tinham vivido os seus últimos dias, bem como o suicídio dos principais dirigentes nazis, que é amplamente mostrado no filme. Conhecia o caso de Hitler e da sua mulher, de Goering, que não é relatado no filme, e que se verificou durante o julgamento do responsáveis nazis em Nuremberga, provavelmente já teria lido referências ao de Goebbels, mas nunca ao da sua mulher e ao assassinato dos seus cinco filhos e muito menos ao da oficialidade mais responsável, que na parte final do filme, e penso que com veracidade, quase que praticam um suicídio colectivo.
Do livro não me ficou mais do que aquilo que eu sabia do filme. Quem, como eu, tiver a curiosidade de conhecer os últimos dias do nazismo pode de facto ler os dois livros que serviram de inspiração ao filme. Mas penso que seria igualmente interessante contar a história do cadáver de Hitler, ou do que restou dele, e como a sua falsa ausência alimentou durante tanto anos a Guerra-fria. Um trabalho documentado e sério sobre isto exige-se, eu pelo menos não o conheço.
Por último, e integrado neste conjunto de livros li o O Livro de Hitler (Alethëia, 2006), que de acordo com o que é dito na capa constitui um “Dossier secreto do NKVD, encomendado por Josef W. Estaline, organizado com base no interrogatório feito em Moscovo, entre 1948 e 1949, a Otto Günsche, oficial das SS e responsável pela agenda político-militar de Hitler, e a Heinz Linge, mordomo de Hitler”. O livro tem um prefaciador e dois organizadores. O prefácio é um pequeno compêndio de revisionismo histórico na linha de que Hitler estava bem para Estaline. Cito alguns exemplos, só para recordar aos meus leitores em que consiste esta nova maneira de tratar a história da Segunda da Guerra Mundial. Interroga-se o prefaciador: “o que terá levado ao interesse mútuo entre os líderes das duas mais fanáticas ideologias que, no século XX, precipitaram Europa no abismo?” Ou seja, para este prefaciador, a responsabilidade pela II Guerra Mundial é de Hitler e Estaline, os estados ocidentais nada tiveram a ver com isto. Mas para além de outros mimos, bem mais graves, temos igualmente este: “A vitória militar, que ditava a ofensiva contra a União Soviética, levou-a a aliar-se a Estados Ocidentais com ideologias pelo menos tão opostas como a da Alemanha de Hitler, nomeadamente os Estados Unidos e a Grã-Bretanha”. Ou seja, o prefaciador esquece que em Junho de 1941, quando Hitler invadiu a URSS, os Estados Unidos ainda não tinham entrado na guerra, e que foi Churchill, sozinho a enfrentar o esforço de guerra contra a Alemanha nazi, quem propôs de imediato uma aliança com a URSS.
Não será este o espaço indicado para debater este novo revisionismo histórico, encabeçado hoje pela direita e por alguma esquerda sem referenciais históricos. Quanto ao livro em si é uma história, que engloba os últimos dias do nazismo e de Hitler, redigida para agradar aos soviéticos, já que os narradores estavam prisioneiros daqueles. Não retive na memória nada que merecesse especial destaque.
Em próximo capítulo irei fazer referência a outras leituras sobre temas diferentes.
PS.: Este texto foi publicado igualmente em http://trix-nitrix.blogspot.com/

terça-feira, abril 15, 2008

O Pesadelo de Fellini

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Os resultados eleitorais em Itália são aterradores. O povo, que já experimentou Berlusconni e depois fez um intermezzo cómico de esquerda, volta a cair nos braços do cavalieri.

Não estamos a falar de uma obscura república das bananas mas da Itália. Trata-se do país de Verdi, de Rosselini, de Antonioni e de Fellini, para não ir mais longe. O país que viveu um fascismo de opereta e uma resistência libertadora, o país onde floresceu um enorme e respeitado Partido Comunista Italiano.

Algo correu mal à esquerda, muito mal mesmo, e eu nunca mais percebo o que foi. Só sei que as tentativas de descrever o panorama partidário à esquerda são demasiado longas, fastidiosas, confusas e frequentemente ridículas.

A generalidade dos comentários às eleições italianas têm implícitas duas teses que eu rejeito:
1. que o povo quando vota contra nós foi necessáriamente enganado, que o povo é fácil de enganar...
2. que os perdedores, neste caso a esquerda, não tiveram qualquer responsabilidade na derrota. Que a derrota não tem nada a ver com as escolhas, birras e inconsistência dos partidos de esquerda.

A única atitude digna no caso italiano é procurar perceber, infatigavelmente, impiedosamente, como é possível ter-se chegado a este ponto.

Em vez disso, já sei, vamos ter o habitual coro de críticas a Berlusconni a demonstrar, pela milésima vez, o que já todos sabemos: que o homem é insuportável.

segunda-feira, abril 14, 2008

Mais uma queda do Império Americano

O Courrier Internacional dá conta, em Abril, do livro publicado recentemente nos Estados Unidos por um tal Parag Khanna e intitulado "The Second World - Empires and Influence in the New Global Order".
O autor, dizem, é "investigador superior do American Strategy Program da New America Foundation", especialista em Geopolítica e nas questões da globalização. Na fotografia parece demasiado jovem para tantos saberes mas quem sou eu para duvidar.
Como não existe ainda tradução do livro o Courrier brinda-nos com um resumo, feito pelo autor, das suas principais teses.
O primeiro comentário que me ocorre fazer é que se trata de uma obra claramente destinada aos americanos e que se insere na categoria a que eu chamaria "assustar para convencer".
O resumo publicado pelo Courrier intitula-se "A queda do Império Americano" o que não podia ser mais apropriado.
O enredo é o seguinte: os americanos vão ter que partilhar o poder global com a Europa (UE) e com a China. Um triângulo cuja geometria o senhor Parag acaba por não esclarecer; escaleno, isósceles ou equilátero ?
Mas porque é que acontece uma "desgraça" destas ? o senhor Parag responde:

"A exibição unipolar dos Estados Unidos provocou contramovimentações diplomáticas e financeiras para impedir os EUA de construirem uma ordem mundial alternativa"

Como todos sabemos, e agora se confirma, não se pode dar muito nas vistas.
Parece-me que o autor trata a Europa com demasiada benevolência e optimismo, o que se compreende como uma liberalidade de argumentista, atribuindo-lhe virtualidades mas omitindo os óbvios emperramentos e círculos viciosos.

A Europa, acho eu, até está no enredo só para enfeitar pois a verdadeira chatice é a China e o seu expansionismo económico. Mesmo assim, e para assustar mais os americanos, o senhor Parag esquece-se de referir algumas desvantagens óbvias dos chineses. A língua, por exemplo, impede a China de se converter numa potência geradora de modelos de comportamento ao nível global.

Para dar uma achega ao senhor Parag aqui deixo a minha antevisão, humildemente e sem custos, já que não pertenço a nenhuma "America Foundation":

- A China converte-se na fábrica do mundo e, juntamente com os outros populosos países asiáticos, desloca não só a produção como os mercados para o Pacífico. As principais indústrias, tecnologias, serviços às empresas e bolsas de valores desenvolver-se-ão nas margens do mar da China e serão responsáveis pelo grosso da actividade económica do planeta.

- Os States, que passarão a designar-se VegasLand tornar-se-ão uma "potência de nicho", imbatíveis no entertenimento e na indústria do "life style". Os seu habitantes serão na sua maioria croupiers, actores, cantores, empregados da hotelaria e motoristas.





- Quanto ao continente europeu, que em cimeira dos 45 adoptará o nome "MusEuropa", especializar-se-á na cultura e no ambiente. Será aqui na MusEuropa que os chineses poderão experimentar sensações exóticas como frequentar o SNS à borla e fingir que têm pensões de reforma do tipo Caixa Geral de Aposentações. Também haverá excursões centradas em experiências radicais como passear e respirar sem máscara e tomar banho num rio sem vestir fato de mergulhador.



O resto do mundo será uma grande quinta de onde virão as couves e os bifes.

E viveremos felizes enquanto o aquecimento global permitir.

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domingo, abril 13, 2008

O “meu caso”, as procissões hospitalares e “A Sala Magenta”


Quando passava longas noites sem dormir no hospital, arranjava sempre modo de passar as horas elaborando mentalmente o que poderia escrever quando tivesse acesso ao meu blog. Era uma forma de me manter intelectualmente activo e de ir entretendo a insónia que sempre me ataca nos períodos pós-operatórios.
Pensava contar o “meu caso”, descrever tudo aquilo que padecia e que me tinha levado até àquela situação. Pensava que do ponto de vista da medicina o assunto poderia interessar. Por outro lado, como hoje está na moda criar blogs onde se vai descrevendo o sofrimento dos pacientes, pensei que tinha chegado a minha vez de mostrar os meus dotes de escritor.
Chegado a casa e tendo deparado com um computador avariado e uma enorme falta de vontade de fazer seja o que for, reparei como seria ridículo pôr-me a descrever a minha situação, mesmo que ela tivesse qualquer interesse clínico.
Por isso, passados que são já quase três meses sobre a minha operação, resta-me aquilo que também me entretinha o tempo e me dava alento para aguentar o internamento hospitalar, que é descrever a situação em que decorre hoje o dia a dia de uma enfermaria, neste caso com doentes recentemente operados.
Na altura teria de certeza muito mais queixas e imprecações contra o hospital público. Hoje, e porque é um assunto que de cada vez que sou internado me desperta a atenção e que até ao momento nunca encontrei resposta para ele, limito-me a relatar unicamente este caso.
Existem três turnos diários de enfermeiros e de pessoal auxiliar, penso ser esta a designação correcta para aquele pessoal que nos hospitais nos fornece as refeições, faz a cama e atende, em primeira linha, os nossos pedidos. Os turnos são de oito horas, começando o primeiro às oito da manhã, o segundo às quatro da tarde e o terceiro, penso que às onze, isto porque, segundo me disseram, é para o pessoal não sair tão tarde dos hospitais e não ter problemas de transportes e de maus encontros.
Ora a mudança de turno durante a tarde não tem qualquer problema. Dantes, quando as famílias tinham um horário muito limitado de visitas, correspondia à hora do lanche e ao enxotar das mesmas. O mesmo já não sucede com a mudança da noite. Assim, o que se verifica, é que o turno que vai sair prepara tudo para, pelo menos, deixar deitados os doentes e as luzes da enfermaria apagadas. Isso acontece aí pelas dez horas. Ora, à meia-noite e meia, um pouco menos ou um pouco mais, quando estamos no nosso melhor dos sonos – aqueles que conseguem adormecer – eis que percorrem os corredores e nos entram pela enfermaria a dentro, os auxiliares a perguntarem se queremos beber uma coisa a que eles chamam “leitinho quente”, que nem é leite, nem está quente, ou então um chá que eu, porque não aprecio, nunca soube se sabia de facto a qualquer coisa de parecido. Por outro lado, os enfermeiros vêm-nos dar os últimos comprimidos e medir-nos a tensão e a temperatura. Acrescente-se que os comprimidos são transportados num carro, normalmente pouco oleado, que percorre os corredores a fazer uma chinfrineira dos diabos. Um pouco depois daquela intromissão, os enfermeiros ou o pessoal auxiliar vem rapinar os sofás que estão atribuídos aos doentes, e onde estes passam o dia, levando-os em comboio pelos corredores fora até ao local onde, penso eu, aproveitam para descansar durante a noite, já que não devem dispor de camas para esse efeito. Esses sofás são distribuídos novamente pelas enfermarias na manhã seguinte, mas muitas vezes não se recupera o sofá que se tinha ganho na véspera. É sempre um risco e um motivo para estar de olho alerta.
A situação anteriormente descrita repete-se com a mudança de turno da manhã. Como o pessoal sai às oito, tem que deixar os doentes já medicados e com o tal “leitinho” tomado, que não é equivalente ao pequeno-almoço, já que este só virá pelas nove, dez horas. Ou seja, pelas seis e meia, na melhor das hipóteses sete, lá vem novamente a procissão com os carros e o “leitinho”, e os doentes, que muitas vezes só agora conseguiram adormecer, são acordados violentamente para se dar início a esta nova operação.
A isto acresce, que aqueles que conseguem readormecer são novamente acordados pelas senhoras da limpeza, que entre as oito e as nove horas vêm proceder à limpeza da enfermaria. Acendem as luzes, por vezes ligam a televisão sem ninguém lhes pedir, conversam durante todo o tempo entre si e lá nos impedem mais uma vez de dormir.
Fui encontrar uma descrição semelhante, muito mais bem escrita é evidente, no belo romance de Mário de Carvalho, A Sala Magenta, em que a personagem principal, que funciona como narrador, diz a determinada altura (página 22): “Do hospital guardava a memória duma voz feminina … e do escarcéu brutal de todas as mudanças de turno, em que o pessoal irrompia pelos corredores aos berros, com pancadas nas portas, e chinfrim de latas batidas, como se fossem agredir os doentes, a ideia mais próxima que tinha da invasão dos bárbaros….”
Penso sinceramente que estes horários deveriam ser modificados. Provavelmente dir-me-ão que não há outra solução, que os doentes devem ser medicados àquelas horas, que um diabético não pode estar muito tempo sem ingerir qualquer coisa. Tudo isso são boas razões, mas até hoje nunca ninguém me conseguiu explicar devidamente, porque se interrompe tão violentamente o sossego daqueles que tanto necessitam dele.
Não gostaria de terminar este meu post sem reconhecer que sou a favor do Serviço Nacional de Saúde e por isso recorri a ele. Que do ponto de vista médico e mesmo de enfermagem sempre fui excelentemente tratado. Que utilizaram cirurgicamente as melhores técnicas que tinham à sua disposição e que os médicos e enfermeiros sempre se esforçaram com grande qualidade por executarem as suas tarefas com a maior probidade e competência. Este agradecimento era devido e indispensável.


PS.: Este texto foi publicado igualmente em http://trix-nitrix.blogspot.com/

Uma fera na alcatifa

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Eu tinha previsto AQUI a queda da ministra da educação, a demissão de Sócrates e a convocação de eleições antes que a oposição se organizasse. Enganei-me.
Sócrates resolveu mandar embalsamar a ministra e sentá-la, como se ainda vivesse, no seu gabinete. Algum espasmo pos-mortem permitir-lhe-á ainda assim rubricar com os sindicatos os acordos sobre as avaliações dos professores (nas calendas).
No Ministério da Saúde Sócrates tinha optado por uma solução de outro tipo; no lugar de Correia de Campos mandara instalar um zombie que passeia um discurso ininteligível pelos corredores do SNS.
O desvario justiceiro da RAP (Reforma da Administração Pública), avança assim de claudicação em claudicação até à paralisia total.

Aquele que em tempos se autodenominou "a fera das corporações" transformou-se num gatarrão que ronrona crochés. Se ganhar as eleições em 2009 a Menezes o pode agradecer.

quarta-feira, abril 09, 2008

Nem na morte ?

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Uma organização de defesa dos direitos da comunidade de gays e lésbicas da Dinamarca acaba de criar uma área, num cemitério de Copenhaga, destinada exclusivamente aos homossexuais. "Nós criámos o grupo Regnbuen (Arco-íris) e o nosso objectivo é que gays e lésbicas possam ser enterrados próximos uns dos outros", disse Ivan Larsen nesta terça-feira, dia 8 de Abril.
Segundo Larsen contou à AFP, a organização possui 45 lugares no Assistens Cemetery e cada espaço pode custar aproximadamente cerca 526 dólares.
A parte do cemitério adquirida pela Regnbuen fica separada do restante e dentro de um grande triângulo.
Posso não estar a perceber mas isto parece-me um absurdo, uma auto-segregação, quando constantemente se pugna pela inclusão de todos sem distinções.
Se um heterossexual tivesse proposto esta medida seria certamente acusado de querer discriminar os homossexuais.
Eis no que dá o novo-riquismo das causas fracturantes.

terça-feira, abril 08, 2008

A ponte é uma miragem...

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O "Prós e Contras" de ontem, em pleno contraditório de especialistas, tornou claro que alguns argumentos dos adversários da ponte Chelas-Barreiro são infantilmente inconsistentes. A saber:
- As fotomontagens com que se pretendia antever o impacto visual da nova ponte, e que a comunicação social divulgou amplamente, estão grosseiramente erradas. Correspondem a uma ponte com pilares da ordem dos 500 metros de altura (na ponte projectada têm menos de metade).
- Os 60.000 automóveis que a nova ponte viria a "despejar" em Lisboa são afinal 30.000 e desses uma parte significativa entraria na cidade de qualquer modo pelas outras pontes já existentes.
É aterradora a falta de consistência dos "especialistas" que pululam na nossa sociedade e também a falta de controle com que toda a espécie de argumentos e teses invade diáriamente o nosso mundo mediático saturado de "unsound bites" (já tinha referido a nova ponte AQUI).
Helena Roseta, com medo dos 60.000 carros invasores, e Luís Filipe Menezes com a proposta do tunel da Trafaria, atiraram-se como gato a bofe à nova ponte ainda antes de terem validado a informação em que se estavam a basear. Um espectáculo triste.
Conclusão: quer se trate do Tibete, do aquecimento global, dos acidentes de viação ou de outra "evidência" qualquer constitui um acto de cidadania recusar embarcar acriticamente na carneirada geral.
De cidadania e de saúde mental.

segunda-feira, abril 07, 2008

Insuportável

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Todas as possibilidades de um eventual boicote do presidente francês Nicolas Sarkozy à cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos estão em aberto, afirmou hoje o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Bernard Kouchner.O ministro falava na altura em que a chama Olímpica estava prestes a passar por Paris. Em declarações à televisão LCI, Kouchner disse que todas as opções estão "em aberto".
A ameaça mais preocupante para os dirigentes chineses foi entretanto enunciada pelo próprio Sarkozy: "Se não for aberto o diálogo com o Dalai Lama não levo a Carla Bruni à cerimónia de abertura dos Jogos".

domingo, abril 06, 2008

Por uns jogos gregos em Pequim

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Sou contra o "aproveitamento" político dos Jogos Olímpicos por uma razão muito simples: isso é contrário ao próprio ideal dos jogos tal como foram criados e recriados na Grécia. A ideia foi, e é, estabelecer um período em que mesmo os inimigos mais ferozes se encontram para celebrar a competição pura do desporto.
Se alguém acha que esta ideia não faz sentido então deve simplesmente propor que os jogos acabem e não se fala mais nisso. Continuaremos a ter os Campeonatos Mundiais e muitas outras provas do mesmo tipo; Jogos Olímpicos, não.


Perante a campanha orquestrada com pretexto no Tibete o Comité Olimpico Internacional viu-se recentemente na necessidade de lembrar que não lhe compete resolver os problemas económicos e políticos do mundo. Disse também que muitos dos que "equacionam" o boicote dos Jogos continuam cínicamente a fazer grandes negócios em Pequim. O COI foi ao ponto de classificar como completamente falsa a tese, posta entretanto a circular, de que os Jogos tinham piorado a situação dos direitos humanos na China.

Quando se vê uma figura de opereta como Sarkozy ralhar com um país como a China, que incluía o Tibete quando a Corsega e a Bretanha ainda não integravam a França, é caso para pensar que o espírito colonial, mesmo depois de manifestamente impotente, perdura sem se precaver do ridículo.

quinta-feira, abril 03, 2008

Os "velhos do Restelo" mudaram-se para o "mar da palha"

Muito antes da decisão do governo sobre a nova ponte já decorria o campeonato da "terceira travessia", uma espécie de "terceira via" para a outra banda.
Os especialistas esgrimiram na praça pública mas a profundidade das estocadas escapa ao cidadão comum.
A única coisa que me parece compreender é que a versão Beato-Montijo "amarra" na margem Sul quase no mesmo ponto em que "amarra" a Vasco da Gama. Assim, à vista desarmada, parece redundante.
Mas o que tem mais piada é a vertente estética. Houve logo quem saltasse contra a poluição do "sistema de vistas" e até avançasse com"antevisões" da catástrofe.
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O mais curioso é que a argumentação (por exemplo do TIS) procede como se a introdução de um elemento novo numa paisagem tivesse consequências inevitavelmente negativas.

A partir deste pressuposto, cuja validação é elegantemente dispensada, adiantam-se argumentos e até se computa em 170.000 o número de habitantes com as "vistas" afectadas, sem contar com os turistas. Tudo isto para concluir que a versão Beato-Montijo é muito melhor dado "distanciar-se ao máximo das colinas históricas".

Não consigo concordar em abstracto com tais teses já que, na prática, conheço situações em que o diálogo entre o contemporâneo e o "histórico" tem resultados excelentes; para não ir mais longe cito o caso do CCB que tendo provocado há uns anos muita celeuma aí está para mostrar que o convívio com os Jerónimos pode ser enriquecedor.

Deixem-me fazer uma pergunta: o estuário do Tejo seria mais interessante, ou mais bonito, ou mais "estético" sem a Ponte 25 de Abril ?

Quando o Salazar decidiu a "Ponte sobre o Tejo" não existiam, é certo, estas mordomias de discordar e fazer escândalo nos jornais. Era calar e comer. Mas hoje alguém tem dúvidas sobre o impacto positivo da elegância e majestade da ponte sobre todos os que visitam Lisboa ?

A ponte 25 de Abril avista-se do Terreiro do Paço, do Castelo, da Torre de Belém, de quase todos os miradouros de Lisboa. Passa pela cabeça a alguém que a ponte constitui uma degradação da paisagem que prejudica o turismo ?

Os "velhos do Restelo" mudaram-se para o "mar da palha".

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